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Foto: Adriano Machado/Reuters
Por: Walter Azzolini | 21/02/2024 17:43
Na semana da primeira reunião de chanceleres do G20 sob a presidência do Brasil, a controvérsia entre o presidente Lula e Israel ameaça distrair a atenção de um momento crucial para a agenda global brasileira. Lula foi declarado "persona non grata" pelo governo israelense após comentários sobre o Holocausto e os ataques de Israel a Gaza. Em resposta, Lula convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas, e o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também convocou o embaixador israelense ao Palácio Itamaraty. Essas ações ganharam destaque na imprensa internacional em um momento estratégico para o governo brasileiro.
O Brasil assume pela primeira vez a presidência rotativa do G20, grupo composto pelas 19 maiores economias do mundo, além da União Europeia e da União Africana. O encontro de chefes da diplomacia do grupo, realizado na Marina da Glória nos dias 21 e 22 de fevereiro, conta com a participação de figuras importantes como o Secretário de Estado americano, Antony Blinken, e o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov. Esta reunião prepara a agenda oficial da Cúpula de Líderes do G20, agendada para 18 e 19 de novembro, também no Rio de Janeiro. Considerada o principal evento diplomático do Brasil em 2024, a cúpula com chefes de governo e Estado oferece uma oportunidade para o presidente Lula relançar o Brasil como um país de liderança global, segundo o cientista político Maurício Santoro. Após anos de relativa inatividade na agenda internacional durante o governo Bolsonaro, o Brasil parece retornar a um papel mais proeminente no cenário mundial.
No entanto, a controvérsia com Israel pode desviar a atenção das prioridades da presidência brasileira do G20, que incluem reformas na governança internacional, a inclusão de países africanos no grupo, o combate à fome e às mudanças climáticas, e o "protecionismo verde". Essa disputa já impactou negativamente outras agendas globais do governo, segundo Santoro.
"As declarações foram dadas durante a viagem do presidente à África, uma viagem importante também para esse relançamento da política externa africana do Brasil, de trazer a União Africana para o G20."
"Esses deveriam ter sido os grandes temas em discussão", afirma Santoro. "Mas o presidente cometeu um erro ao transformar essa viagem no centro de uma controvérsia sobre Israel, Gaza e o Holocausto", opina.
O analista Carlos Gustavo Poggio, especialista em relações Brasil-EUA e professor de Relações Internacionais do Berea College, no Estado americano do Kentucky, ressalta que a presidência do G20 tem uma importância simbólica e representa um palco relevante para o Brasil.
"No longo prazo, não creio que (a presidência) deve ter muita repercussão. Mas certamente é um momento importante, inclusive para trazer dividendos doméstico para Lula, para se apresentar como líder", diz Poggio à BBC News Brasil.
