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Ursula von der Leyen durante evento oficial da União Europeia; presidente da Comissão afirma estar confiante na aprovação do acordo com o Mercosul (Foto: Yves Herman/Reuters).
Por: Editorial | 19/12/2025 07:22
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou nesta sexta-feira (19) que existe uma maioria suficiente de Estados-membros da União Europeia disposta a apoiar o acordo comercial entre o bloco europeu e o Mercosul. A declaração ocorreu um dia após o anúncio de que a assinatura do tratado, prevista inicialmente para este sábado (20), foi adiada para janeiro.
Segundo von der Leyen, a decisão de postergar a conclusão do acordo foi tomada em comum acordo com os países do Mercosul. Em conversa com jornalistas, ela declarou estar confiante de que o tratado será aprovado, apesar das divergências entre alguns membros do bloco europeu. A informação sobre o adiamento foi divulgada pelas agências de notícias AFP e Reuters.
Fontes diplomáticas relataram que a presidente da Comissão confirmou, em reunião com líderes europeus, que a conclusão do acordo ficará para o início de 2026. O adiamento levou representantes políticos e agentes econômicos a recalcular as expectativas em relação ao futuro do pacto, negociado há cerca de 25 anos.
A Comissão Europeia pretendia selar o acordo ainda nesta semana, o que criaria a maior zona de livre comércio do mundo. No entanto, a iniciativa foi adiada após a Itália se alinhar à França, defendendo mais tempo para discutir salvaguardas ao setor agrícola europeu.
De forma geral, o acordo entre Mercosul e União Europeia prevê a redução gradual ou eliminação de tarifas de importação e exportação, além da harmonização de regras em áreas como comércio de bens industriais e agrícolas, investimentos, padrões regulatórios e propriedade intelectual. As discussões se intensificaram com o início da reunião do Conselho Europeu, em Bruxelas, que ocorre entre quinta (18) e sexta-feira (19).
A França segue como o principal foco de oposição ao tratado. O presidente Emmanuel Macron afirmou que o país não apoiará o acordo sem novas garantias para os agricultores franceses. Segundo ele, as condições atuais não oferecem proteção suficiente ao setor, que teme concorrência de produtos do Mercosul, considerados mais baratos e produzidos sob normas ambientais diferentes das europeias.
Em contrapartida, países como Alemanha e Espanha defendem o avanço do acordo. O chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, avaliam que o tratado pode fortalecer a posição comercial da União Europeia diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos e reduzir a dependência econômica da China, ao ampliar o acesso a mercados e a minerais estratégicos.
A Itália mantém uma posição intermediária. A primeira-ministra Giorgia Meloni afirmou que o país pode apoiar o acordo, desde que as preocupações dos agricultores italianos sejam atendidas. Segundo ela, essas demandas dependem de decisões da Comissão Europeia e poderiam ser resolvidas rapidamente.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, demonstrou otimismo após conversar com Meloni por telefone. De acordo com Lula, a premiê italiana não é contrária ao acordo, mas enfrenta pressão política interna. O presidente afirmou acreditar que a Itália poderá aderir ao tratado em poucas semanas.
Enquanto líderes políticos debatiam o tema em Bruxelas, milhares de agricultores de diversos países europeus protestaram contra a política agrícola da União Europeia e contra o acordo com o Mercosul. A manifestação reuniu tratores nas proximidades das instituições europeias e teve confrontos com a polícia, incluindo queima de pneus e arremesso de objetos. Ao menos uma pessoa ficou ferida.
A aprovação do acordo depende do Conselho Europeu, órgão responsável por autorizar formalmente a Comissão Europeia a ratificá-lo. Diferentemente do Parlamento Europeu, onde basta maioria simples, o Conselho exige maioria qualificada: o apoio de pelo menos 15 dos 27 países da União Europeia, que representem 65% da população do bloco. É nessa etapa que se concentra o maior risco político para o avanço do tratado.
Apesar de a oposição se concentrar no setor agrícola, o acordo é mais amplo e envolve também indústria, serviços, investimentos e propriedade intelectual, o que explica o apoio de diferentes setores econômicos europeus. Com o adiamento, a expectativa de uma viagem de Ursula von der Leyen ao Brasil para ratificação do acordo ainda neste ano foi descartada. Com informações: g1
