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Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante compromisso oficial no fim de dezembro de 2025; governo americano passou a tratar a mudança de regime na Venezuela como prioridade estratégica (Foto: Reuters/Jonathan Ernst).
Por: Editorial | 03/01/2026 08:46
O ano de 2026 começou com explosões registradas em Caracas e acusações diretas do governo venezuelano e do presidente colombiano, Gustavo Petro, contra os Estados Unidos por um ataque de larga escala à Venezuela. Horas depois, o presidente americano Donald Trump afirmou, em sua rede social Truth Social, que forças dos EUA capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, que teriam sido levados de avião para fora do país.
Segundo Trump, a ofensiva representou um ataque em grande escala contra a Venezuela. Em dezembro de 2025, a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, já havia sinalizado publicamente que a mudança de regime era uma prioridade da política externa americana. Em entrevista à revista Vanity Fair, ela declarou que o objetivo era manter a pressão militar até que Maduro se rendesse, fazendo referência à campanha dos EUA contra embarcações venezuelanas suspeitas de tráfico de drogas no Caribe.
Inicialmente, o discurso do governo americano indicava que o combate ao narcotráfico estava no centro da estratégia. Trump vinha associando a Venezuela ao tráfico internacional e chegou a classificar o fentanil como arma de destruição em massa. Paralelamente, surgiram especulações de que os ataques também poderiam estar ligados ao interesse dos EUA em recursos naturais venezuelanos, como petróleo e terras raras, especialmente após o bloqueio total imposto a petroleiros sancionados que operavam no país.
Para analistas, no entanto, a entrevista de Wiles deixou claro que o principal alvo sempre foi o próprio Maduro. Paul Hare, diplomata britânico aposentado e diretor interino do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Boston, avalia que, no início do segundo mandato de Trump, a intenção era negociar concessões com o governo venezuelano, envolvendo deportações e acordos comerciais. Essa abordagem teria sido abandonada em favor de uma estratégia direta de remoção do presidente venezuelano, no poder desde 2013.
Especialistas apontam que derrubar Maduro pode ser visto pela Casa Branca como um objetivo mais viável do que lidar com conflitos complexos como os da Ucrânia e de Gaza. A ação também se alinha à estratégia de segurança nacional do segundo mandato de Trump, que prioriza o fortalecimento da influência dos EUA no hemisfério ocidental.
O analista Jesus Renzullo, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais, afirma que o secretário de Estado Marco Rubio, conhecido por sua postura dura e oposição ao regime venezuelano, pode enxergar a ofensiva como uma oportunidade para ampliar a pressão sobre Cuba. O país caribenho depende fortemente da Venezuela para o fornecimento de energia, e um enfraquecimento de Caracas teria impacto direto sobre Havana.
Apesar disso, Paul Hare avalia que a Venezuela é tratada como um caso isolado pela administração Trump e que não há indícios de uma política mais ampla de intervenções militares na América Latina. Para ele, o governo americano considera Maduro ilegítimo e vê sua permanência no poder como um problema específico a ser resolvido.
Além da geopolítica, fatores internos também pesam na decisão de Trump. O governo americano vinha apoiando a oposição venezuelana, liderada por Maria Corina Machado, recentemente reconhecida com o Prêmio Nobel da Paz. Ainda assim, analistas acreditam que a motivação de Trump esteja mais ligada à construção de seu legado político do que à defesa da democracia venezuelana.
Segundo Jim Marckwardt, tenente-coronel aposentado do Exército dos EUA e professor da Universidade Johns Hopkins, o objetivo não é petróleo nem democracia. Para ele, Trump busca uma vitória política clara, após fracassos anteriores em remover Maduro do poder, inclusive depois das eleições venezuelanas de 2024, que observadores independentes apontaram como vencidas pela oposição.
Outro fator relevante é a queda de popularidade de Trump desde a reeleição, especialmente entre eleitores latino-americanos. Uma ação dura contra o governo venezuelano pode fortalecer o apoio da diáspora latino-americana, particularmente na Flórida, estado-chave para o presidente e onde esse eleitorado tem grande peso político. Com informações: g1
