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Navio carregado deixa o porto de Santos, principal saída das exportações brasileiras para a União Europeia (Foto: Rebeca Mello/Getty Images).
Por: Editorial | 10/01/2026 09:34
Após mais de duas décadas de negociações, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia entra na fase decisiva de assinatura e ratificação, trazendo impactos diretos para o agronegócio brasileiro. A abertura gradual do mercado europeu para produtos como carnes, açúcar, etanol, grãos e frutas projeta ganhos de valor agregado, fortalece o Brasil como fornecedor estratégico de alimentos e amplia o acesso a um dos mercados mais exigentes do mundo, em um contexto global marcado por protecionismo e disputas geopolíticas.
Em 2025, a União Europeia respondeu por 14,3% das exportações totais do Brasil, somando US$ 49,8 bilhões, e por 14,9% das exportações do agronegócio, com US$ 25,2 bilhões. No curto prazo, o acordo destrava cotas com tarifas reduzidas ou zeradas para produtos centrais da pauta agroexportadora. No médio e longo prazos, consolida o bloco europeu como um mercado-baliza, capaz de influenciar padrões sanitários, ambientais e de consumo que tendem a se espalhar para outros destinos premium.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o acordo integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto superior a US$ 22 trilhões. Para o economista-chefe da Ecoagro, Antonio da Luz, trata-se do maior acordo comercial já negociado pelo Mercosul e de um marco histórico, capaz de impulsionar o progresso por meio do comércio entre nações.
Especialistas ponderam, no entanto, que os ganhos não serão homogêneos. Para José Luiz Mendes, consultor de Estratégia e M&A da StoneX, o acordo cria oportunidades concretas para setores altamente competitivos do agro brasileiro, como café solúvel, suco de laranja, frutas frescas, óleos vegetais e pescados, mas também aumenta a concorrência em outras cadeias. Mais do que expansão de volume, o tratado representa um reposicionamento estratégico do Brasil no comércio internacional.
O acordo prevê cotas relevantes para exportação de carne bovina, aves, suínos, açúcar, etanol, arroz, mel, milho, sorgo, suco de laranja, cachaça e diversos derivados lácteos, além da eliminação total de tarifas para várias frutas frescas. Em contrapartida, o Mercosul deverá receber produtos europeus de maior valor agregado, como azeites, vinhos e laticínios, o que pode pressionar preços e margens em alguns segmentos internos, especialmente na cadeia de lácteos.
Historicamente, a União Europeia nunca foi o principal destino em volume para a carne bovina brasileira, mas sempre teve papel decisivo na formação de preços e padrões de qualidade. Em 2025, apenas 3,7% do volume exportado teve como destino o bloco europeu, mas a receita gerada representou 5,8% do valor total, reforçando a importância do mercado europeu na construção de uma indústria exportadora sofisticada, baseada em cortes nobres, rastreabilidade, genética e padronização.
Estudos citados por economistas indicam que, no longo prazo, o acordo pode gerar um aumento próximo de 2% na produção do agronegócio brasileiro, com ganhos concentrados em cadeias como pecuária, aves, suínos e óleos vegetais. Esses efeitos, porém, tendem a ocorrer de forma gradual e dependem da capacidade de adaptação e execução das empresas.
Nos demais países do Mercosul, os benefícios também são assimétricos. A Argentina fortalece nichos de alto valor, como carne premium e vinhos; o Uruguai consolida-se como fornecedor de carnes e lácteos de alta qualidade, apoiado por rastreabilidade total do rebanho; e o Paraguai amplia competitividade em soja e carne bovina, beneficiando-se de regras de origem mais flexíveis.
O ponto mais controverso do acordo está na vinculação direta entre comércio e sustentabilidade. A União Europeia endureceu salvaguardas agrícolas e incorporou barreiras não tarifárias, como a exigência de comprovação de que produtos não se originam de áreas desmatadas após dezembro de 2020, mesmo que o desmate tenha sido legal segundo a legislação brasileira. Esse modelo de comércio condicionado exige rastreabilidade detalhada, auditorias frequentes e conformidade ambiental contínua.
Para grandes exportadores, a adaptação tende a ser mais viável. Para pequenos e médios produtores, os custos de adequação podem pressionar margens e exigir apoio técnico e institucional. Apesar das controvérsias, o acordo representa um divisor de águas para o agronegócio brasileiro. O desafio agora será transformar exigências regulatórias em vantagem competitiva e avançar na implementação, em um cenário que ainda pode enfrentar resistências políticas e jurídicas dentro da própria União Europeia. Com informações: Forbes
