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Gado em pastagem em fazenda de Mato Grosso do Sul, cenário que ilustra a dinâmica do ciclo pecuário e as variações no preço da arroba do boi (Foto: João Carlos Castro).
Por: Editorial | 22/01/2026 14:20
Em Mato Grosso do Sul, as variações no preço da arroba do boi estão diretamente relacionadas ao ciclo pecuário, um movimento estrutural da atividade que reflete decisões produtivas tomadas pelos pecuaristas e cujos impactos só aparecem meses ou até anos depois. Mesmo com a demanda por carne relativamente estável, a oferta de animais para abate sofre oscilações conforme o comportamento do produtor, especialmente em relação ao abate ou à retenção de fêmeas.
De acordo com Diego Guidolin, consultor em pecuária do Departamento Técnico da Famasul, a pecuária bovina se diferencia de outros setores produtivos por depender de um intervalo biológico longo. Isso significa que decisões tomadas no presente, como o descarte de matrizes ou a retenção de fêmeas para reprodução, só terão reflexo efetivo no mercado após um período prolongado.

Variação do preço do bezerro e do número de abate de fêmeas no estado de Mato Grosso do Sul. (2025 com valores considerados até novembro)
Essa dinâmica pode ser observada na relação entre o abate de fêmeas e o preço do bezerro no estado. Em momentos em que o abate de matrizes aumenta, há um crescimento temporário na oferta de animais, o que tende a pressionar para baixo os preços do bezerro no curto prazo. No entanto, esse movimento gera consequências futuras importantes.

Variação do preço da arroba do boi gordo e do bezerro de 8 a 12 meses em Mato Grosso do Sul. (2025 com valores considerados até novembro)
Durante a fase de baixa do ciclo pecuário, a desvalorização da arroba do boi gordo estimula o descarte de fêmeas, já que o setor de cria passa a operar com margens mais apertadas. Como o preço do bezerro acompanha o valor do boi gordo, os criadores enfrentam menor rentabilidade, o que desestimula a retenção de matrizes. O aumento do abate eleva a oferta de carne no curto prazo e contribui para manter os preços em patamares mais baixos.
No médio e longo prazo, porém, esse comportamento se inverte. A redução no número de fêmeas compromete a produção futura de bezerros, já que o ciclo reprodutivo envolve aproximadamente nove meses de gestação e mais sete a nove meses até o desmame. Ao todo, são necessários cerca de 18 a 20 meses para que a menor oferta de animais de reposição seja sentida de forma significativa pelo mercado.
Esse período marca o início da fase de alta do ciclo pecuário. A valorização do bezerro costuma anteceder o aumento no preço da arroba do boi gordo, sinalizando uma futura redução na oferta de animais prontos para o abate. Com o custo de reposição mais elevado, recriadores e terminadores enfrentam margens mais pressionadas, o que impacta a dinâmica do mercado.
À medida que os animais que deixaram de ser produzidos chegam à idade de abate, os frigoríficos passam a enfrentar menor disponibilidade de bovinos, sendo obrigados a pagar mais para garantir matéria-prima. Esse movimento impulsiona a valorização da arroba e consolida a fase de alta do ciclo.
Com os preços em níveis elevados, o comportamento do produtor muda novamente. A valorização dos animais de reposição estimula a retenção de fêmeas para reprodução, reduzindo o abate de matrizes. Após cerca de 20 meses, essa decisão resulta em aumento da oferta de bezerros, iniciando gradualmente uma nova fase de baixa nos preços.
Segundo Guidolin, a decisão de abater ou reter fêmeas é o principal motor do ciclo pecuário, pois determina a capacidade futura de produção do sistema. Diferentemente do abate de machos, que impacta apenas a oferta imediata de carne, o manejo das matrizes influencia diretamente o volume de animais disponíveis nos anos seguintes.
No Brasil, o ciclo pecuário completo costuma durar de seis a dez anos, com cada fase, de alta ou de baixa, se estendendo por períodos de três a cinco anos. Fatores como condições climáticas, custos de produção, acesso ao crédito e mudanças no mercado podem acelerar ou retardar esse movimento, mas não alteram sua lógica estrutural.
Para a Famasul, compreender o funcionamento desse ciclo é fundamental não apenas para os produtores, mas também para agentes do mercado, investidores e todos que acompanham o setor de carne bovina, pois permite uma leitura mais estratégica das oscilações de preços e das oportunidades ao longo do tempo. Com informações: Campo Grande News
