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Ilha da Trindade recupera vegetação após extermínio de cabras que devastaram área verde


Ponto mais distante da costa brasileira, ilha ampliou em mais de 1.400% a cobertura vegetal nativa quase 30 anos após retirada de animais invasores.
Ilha da Trindade, no Espírito Santo, que recuperou parte da vegetação nativa após a erradicação de cabras introduzidas há mais de três séculos (Foto: Ramon Porto/TV Gazeta). Por: Editorial | 28/01/2026 10:06

A Ilha da Trindade, localizada a 1.160 quilômetros da costa do Espírito Santo e considerada o ponto mais distante do litoral brasileiro, vem apresentando uma expressiva recuperação ambiental após décadas de degradação causadas pela introdução de cabras no local. Quase 30 anos depois do extermínio dos animais, a vegetação nativa voltou a se expandir de forma natural, sem intervenção humana direta.

Durante o período em que as cabras habitavam a ilha, a cobertura vegetal foi reduzida drasticamente, chegando a menos de 5% da área original. A presença dos animais provocou a destruição de plantas, sementes e raízes, além de danos causados pelo pisoteio, o que comprometeu o equilíbrio ecológico e levou à perda de espécies endêmicas.

Em 2014, um estudo piloto começou a monitorar a regeneração da vegetação em áreas anteriormente degradadas. Pesquisadores acompanharam a transformação do cenário, que havia se tornado praticamente desértico, para o ressurgimento gradual de florestas e vegetação rasteira. Em 2023, a pesquisadora Márcia Gonçalves, do Laboratório de Fitogeografia Insular e Montana do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), passou a integrar a equipe responsável pelas análises.

Com o uso de imagens históricas, dados de expedições anteriores e técnicas de sensoriamento remoto, os pesquisadores reconstruíram a evolução da paisagem da ilha ao longo dos últimos 30 anos. As análises indicaram que algumas espécies de plantas exclusivas da Ilha da Trindade foram completamente extintas, enquanto outras, que chegaram a ter menos de dez indivíduos, conseguiram se recuperar e hoje contam com populações em torno de cem exemplares.

Floresta de samambaias gigantes na Ilha da Trindade, Vitória, Espírito Santo — Foto: Ramon Porto/TV Gazeta

Floresta de samambaias gigantes na Ilha da Trindade, Vitória, Espírito Santo. (Foto: Ramon Porto/TV Gazeta)

Os dados apontam que, em comparação ao período em que a vegetação ocupava menos de 5% da ilha, houve um crescimento de aproximadamente 1.468% na área verde, o equivalente a 65 hectares. A vegetação rasteira também se expandiu significativamente, alcançando um aumento de 319%, o que representa cerca de 325 hectares adicionais. Atualmente, estima-se que a vegetação cubra aproximadamente 15% da antiga área florestal.

Os pesquisadores destacam a resiliência do ambiente insular e a capacidade de regeneração da natureza mesmo em ecossistemas considerados mais sensíveis. O caso também reforça a necessidade de controle rigoroso de espécies exóticas, apontadas como uma das principais causas de desequilíbrios ambientais em ilhas e outros ecossistemas frágeis.

A Ilha da Trindade é uma Área de Proteção Ambiental (APA) com acesso controlado pela Marinha do Brasil. O local abriga até 46 pessoas entre militares e pesquisadores, que permanecem por períodos de até quatro meses. A chegada à ilha exige uma viagem de aproximadamente quatro dias em navio da Marinha.

O estudo sobre a recuperação da vegetação foi publicado em julho de 2025 no Journal of Vegetation Science, sob o título “From Disturbance to Recovery: Unveiling the Role of Goats and Ecological Drivers on Vegetation Dynamics of Trindade Island, South Atlantic, Brazil”. A pesquisa contou com a participação de Márcia Gonçalves, Felipe Zuñe, Ruy José Válka Alves e Nílber Gonçalves da Silva, e seguirá em andamento com projeções sobre a cobertura florestal até o ano de 2125.

As cabras foram introduzidas na ilha por volta de 1700 pelo astrônomo Edmond Halley, com a intenção de garantir alimento para possíveis náufragos. No entanto, a medida resultou em sérios danos ambientais. Tentativas de erradicação dos animais começaram em 1957, mas somente em 2005, após décadas de esforços e missões de controle, os últimos caprinos foram eliminados.

Ilha da Trindade ficou com menos de 5% da vegetação devido às cabras, mas após o extermínio dos animais, o local está se recuperando . (Foto 1: Ruy José Valka Alves / Foto 2: Márcia Gonçalves)

Desde então, a ilha tem apresentado mudanças significativas, incluindo o reaparecimento de recursos naturais como uma cachoeira, citada em registros históricos antigos, mas que só voltou a ser visível após a recuperação da vegetação. Com informações: g1




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