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Recifes da Grande Barreira de Coral, na Austrália, afetados pelo mais grave episódio de branqueamento já registrado, associado ao aumento da temperatura da água do mar (The Ocean Agency/XL Catlin Seaview Survey via AP).
Por: Editorial | 10/02/2026 07:47
Um estudo internacional publicado na revista científica Nature Communications aponta que cerca de 80% dos recifes de coral do planeta sofreram branqueamento em nível moderado ou severo durante o terceiro evento global do fenômeno, ocorrido entre 2014 e 2017. A pesquisa também indica que aproximadamente 35% das áreas monitoradas registraram mortalidade moderada ou elevada de corais, evidenciando a gravidade dos impactos ecológicos.
O trabalho reuniu dados de mais de 15 mil levantamentos de campo realizados em diferentes oceanos e é considerado a análise mais abrangente já feita sobre esse episódio de branqueamento global. Para estimar a extensão dos danos, os pesquisadores combinaram observações diretas com informações de satélite sobre a temperatura da superfície do mar e o estresse térmico acumulado. Esse cruzamento permitiu estimar impactos inclusive em regiões sem monitoramento direto.
Os resultados mostram que mais da metade dos recifes do mundo passou por branqueamento significativo durante o período analisado. Além disso, o evento de 2014 a 2017 superou, em escala, episódios anteriores registrados em 1998 e 2010, tornando-se o mais amplo já documentado até então. Outro aspecto que chamou atenção foi a duração: o fenômeno se estendeu por cerca de três anos consecutivos, algo inédito em eventos globais desse tipo.
Segundo Guilherme Longo, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e um dos autores brasileiros do estudo, antes dos anos 2000 os eventos de branqueamento global costumavam ocorrer em intervalos de 10 a 15 anos, o que ainda permitia a recuperação dos recifes. Atualmente, esses episódios se repetem com muito mais frequência. Entre 2010, o período de 2014 a 2017, além de novos eventos em 2020 e 2024, os recifes enfrentaram sucessivas ondas de calor marinhas que enfraqueceram os corais e aumentaram a mortalidade, especialmente das espécies mais sensíveis.
Os pesquisadores destacam que o aquecimento dos oceanos tem intensificado e tornado mais frequentes essas ondas de calor marinhas, reduzindo drasticamente o tempo de recuperação entre um episódio e outro. Com menos tempo para se regenerar, os ecossistemas tornam-se mais frágeis e suscetíveis a perdas maiores nos eventos seguintes.
Esse efeito acumulativo já foi observado em diversas regiões do planeta. Em alguns locais, recifes que haviam sido afetados entre 2014 e 2017 voltaram a sofrer branqueamento severo poucos anos depois, resultando em novas perdas e em mudanças na composição das espécies. Em certos casos, a recuperação aparente, medida apenas pela cobertura de corais, mascara uma redução na diversidade biológica e nas funções ecológicas do ecossistema.
No Brasil, os impactos do terceiro evento global foram considerados relativamente menores em comparação com outras regiões, possivelmente devido a características locais, como a maior turbidez da água em alguns recifes, que pode reduzir a incidência de radiação solar. Ainda assim, os pesquisadores alertam que os recifes brasileiros sofreram perdas importantes em eventos posteriores, com aumento da vulnerabilidade ao longo do tempo.
Além dos danos ambientais, a degradação dos recifes de coral traz consequências econômicas e sociais significativas. Esses ecossistemas protegem as costas contra a erosão, sustentam a pesca e o turismo e são fonte de alimento e renda para milhões de pessoas em todo o mundo. Como o branqueamento está diretamente ligado ao aquecimento dos oceanos, especialistas ressaltam que o enfrentamento dessa crise depende da redução das emissões de gases de efeito estufa, da preservação dos recifes ainda resistentes e do controle da poluição costeira. Sem avanços nessas frentes, o futuro dos corais permanece sob risco em escala global. Com informações: g1
