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Morre Graciela Chamorro, referência na preservação da cultura Kaiowá e Guarani


Pesquisadora e professora deixou legado reconhecido no Brasil e no exterior na defesa das línguas, da memória e dos direitos dos povos indígenas.
Pesquisadora Graciela Chamorro foi referência internacional nos estudos sobre os povos Kaiowá e Guarani e na preservação das línguas e culturas indígenas (Foto: Fábio Gruppi). Por: Editorial | 10/02/2026 14:55

Faleceu a professora e pesquisadora Graciela Chamorro Arguello, uma das principais referências nos estudos sobre os povos indígenas, com destaque para as culturas Kaiowá e Guarani. Reconhecida nacional e internacionalmente, sua trajetória acadêmica e intelectual foi marcada pelo compromisso com as línguas originárias, a memória, a cultura e a defesa dos direitos dos povos indígenas.

O velório ocorre nesta quarta-feira (11), a partir das 8h, no Espaço Cultural Casulo, localizado na rua Reinaldo Bianchi, nº 398, em Dourados. No mesmo local, às 15h30, está prevista uma liturgia de despedida.

Nascida no Paraguai, em 1958, Graciela teve o guarani como língua materna, fator decisivo para sua formação intelectual e acadêmica. Em 1977, mudou-se para o Brasil para estudar, graduando-se em Música, em 1981, e em Teologia, em 1982, ambas as formações realizadas em Recife (PE). No ano seguinte, chegou à região de Dourados, onde iniciou sua atuação como professora universitária e cursou Pedagogia.

Foi nesse período que teve o primeiro contato direto com a cultura Kaiowá, na comunidade de Panambizinho, experiência que se tornaria a base empírica de suas pesquisas. A partir desse convívio, desenvolveu estudos aprofundados sobre rituais, história, corpo, língua, cosmologia e cantos dos povos falantes de línguas Guarani.

Graciela concluiu o mestrado em História em 1994 e o doutorado em Teologia em 1997, em São Leopoldo (RS). Entre 1999 e 2005, viveu na Alemanha com a família, onde atuou como professora em três universidades e realizou doutorado e pós-doutorado, dedicando-se ao estudo de fontes escritas em línguas indígenas do século XVII.

De volta ao Brasil, passou a lecionar História Indígena na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), a partir de 2006. Nesse período, consolidou uma ampla rede de pesquisa que reuniu acadêmicos e representantes dos povos Guarani e Kaiowá, promovendo o diálogo entre saberes tradicionais e científicos, além da articulação entre arte e ciência. Em 2014, realizou pós-doutorado na França e, ao longo dos anos, foi frequentemente convidada para ministrar aulas e conferências sobre cosmologia indígena na Alemanha e na França.

Entre suas contribuições mais relevantes está o registro e a preservação da cultura Guarani e Kaiowá, especialmente por meio da documentação de cantos e narrativas tradicionais. Esses trabalhos foram compartilhados em projetos culturais como o Grupo Veraju e o Literatura Oral Kaiowá. Desde 2015, Graciela presidia a Associação Cultural Casulo, em Dourados, onde coordenava ações culturais e de pesquisa em parceria com indígenas Guarani e Kaiowá.

Outro marco de sua trajetória foi a organização do Dicionário Kaiowá–Português, obra coletiva construída com pesquisadores das áreas de linguística, lexicografia, história e antropologia, além da participação direta de indígenas Kaiowá. O trabalho tornou-se referência para a valorização e o fortalecimento da língua Kaiowá.

Graciela Chamorro também deixou vasta produção bibliográfica, com obras como Kurusu Ne’engatu, palabras que la historia no podría olvidar (1995), Terra madura, Yvyaraguyje: fundamento da palavra Guarani (2008), Decir el cuerpo – historia y etnografía del cuerpo en los pueblos Guaraní (2009), História Kaiowá: das origens aos desafios contemporâneos (2015), Povos indígenas em Mato Grosso do Sul: história, cultura e transformações sociais (2017) e Cuerpo social: historia y etnografía de la organización social en los pueblos Guaraní (2018).

Em nota, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lamentou o falecimento da pesquisadora, destacando sua dedicação incansável à defesa da vida e dos direitos dos povos indígenas. A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul também manifestou pesar, ressaltando Graciela Chamorro como referência internacional nos estudos sobre os povos Guarani e Kaiowá e reconhecendo a relevância de sua contribuição para a cultura, a educação e a memória dos povos originários. Com informações: Dourados News




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