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Cervo asiático é avistado no Pantanal e acende alerta entre pesquisadores


Primeiro registro recente no sul de Mato Grosso do Sul indica risco ecológico e possível impacto sobre espécies nativas do bioma.
Legenda para foto: Cervo da espécie Axis axis registrado em área do Pantanal, no sul de Mato Grosso do Sul (Foto: Reprodução/site ((o))eco) Por: Editorial | 16/02/2026 14:28

O avistamento de um cervo da espécie Axis axis, conhecido como chital, acendeu o alerta de pesquisadores sobre uma nova ameaça ao equilíbrio ecológico do Pantanal em Mato Grosso do Sul. O registro foi feito em janeiro de 2026, em uma fazenda localizada a cerca de 100 quilômetros ao sul de Corumbá, na região do Nabileque, entre a margem direita do Rio Paraguai e a fronteira com Bolívia e Paraguai.

Cervo asiático é avistado no Pantanal e acende alerta entre pesquisadores

Fotograma do vídeo obtido no Pantanal. (Foto: Reprodução)

O relato foi acompanhado de vídeo gravado por um funcionário da propriedade rural. As imagens mostram o animal investindo contra touros e sendo perseguido por cães. Trabalhadores da fazenda afirmaram nunca ter visto a espécie na região. A identificação foi confirmada após consulta a técnicos da Embrapa Pantanal.

Por questões de privacidade, a localização exata não foi divulgada. A área é considerada remota, pouco povoada e de difícil acesso, caracterizada como Chaco úmido, o que torna improvável a hipótese de fuga recente de cativeiro. Para os especialistas, a hipótese mais provável é a de dispersão natural.

A ocorrência foi analisada em artigo publicado no site ((o))eco pelas pesquisadoras Liliani Marilia Tiepolo, da Universidade Federal do Paraná, e Walfrido Moraes Tomas, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e da própria Embrapa Pantanal. Segundo os autores, o registro confirma a capacidade invasora da espécie, cuja presença no Brasil foi documentada pela primeira vez em 2009, no Rio Grande do Sul. Desde então, o animal avançou para Santa Catarina, Paraná e interior de São Paulo.

O cervo Axis foi introduzido originalmente em fazendas de caça no Uruguai no início do século XX e, posteriormente, na Argentina entre 1928 e 1930. A partir desses focos, espalhou-se por amplas áreas da América do Sul. De acordo com os pesquisadores, a velocidade estimada de dispersão varia entre 100 e 150 quilômetros por ano. Mantido esse ritmo, a espécie poderá alcançar diversos estados brasileiros em um intervalo de 15 a 20 anos.

A principal preocupação recai sobre os impactos à fauna nativa do Pantanal. Entre as espécies potencialmente afetadas estão o cervo-do-pantanal, já ameaçado de extinção, e o veado-campeiro, além de populações de veado-catingueiro e veado-mateiro. O Axis pode ultrapassar 100 quilos de massa corporal e representa risco de competição por alimento e habitat, transmissão de doenças e interações agressivas com espécies locais. Ainda não há estudos conclusivos sobre a magnitude desses impactos nas áreas onde o animal já está estabelecido, embora haja registro de sobreposição alimentar com cervídeos nativos.

Outro fator que preocupa especialistas é a comercialização do chital pela internet no Brasil. Anúncios apresentam a espécie como ornamental, com preços que podem ultrapassar R$ 10 mil. A venda de outros cervídeos exóticos também é registrada, o que amplia o risco de introduções acidentais ou intencionais no meio ambiente.

O artigo destaca ainda a ausência de políticas públicas estruturadas para o controle de espécies invasoras no país. Como exemplo, cita o caso do javali, cuja estratégia baseada principalmente na atuação de colecionadores, atiradores desportivos e caçadores não teria sido suficiente para conter a expansão. Segundo os pesquisadores, seriam necessárias remoções anuais superiores a 60 por cento da população para frear o avanço da espécie.

A falta de um serviço nacional ou estadual especializado em vida selvagem voltado ao monitoramento técnico de populações invasoras também é apontada como entrave. Países como Estados Unidos, Canadá e Austrália adotam modelos estruturados de gestão. Para os autores, o novo registro reforça a necessidade urgente de o Brasil estruturar uma governança pública capaz de enfrentar invasões biológicas, consideradas um dos principais desafios globais à conservação da biodiversidade. Com informações:Campo Grande News




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