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Hoje é Sábado, 11 de Julho de 2026.
Especialistas e autoridades participaram de debate sobre o combate à violência contra idosos em Mato Grosso do Sul. (Foto: Wagner Guimarães)
Por: Editorial | 11/07/2026 10:16
A violência contra a população idosa em Mato Grosso do Sul segue avançando de forma silenciosa e preocupa especialistas. Um estudo desenvolvido pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) aponta que, apesar dos registros oficiais e das ações de combate, muitos casos continuam sem chegar ao conhecimento das autoridades, principalmente quando os agressores fazem parte do círculo familiar das vítimas.
O levantamento “Diagnóstico da Violência no MS: Dados, Invisibilidade e Necessidades Intersetoriais”, elaborado pelo Ambulatório de GerontoGeriatria e Cuidados Paliativos da UFMS, foi apresentado durante o 11º Seminário Estadual de Enfrentamento à Violência Contra a Pessoa Idosa, realizado na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul.
Defensor público Marcelo Marinho da Silva
De acordo com o estudo, o Estado registrou 4.252 denúncias de violência contra idosos, que resultaram em 542 prisões durante ações de enfrentamento. No entanto, pesquisadores alertam que os números representam apenas uma parcela da realidade, pois muitos idosos deixam de denunciar por medo, dependência financeira ou emocional do agressor e falta de conhecimento sobre seus direitos.
Segundo o professor Eduardo Ramirez Mezza, responsável pela pesquisa, os dados representam apenas a parte visível de um problema muito maior. A violência contra idosos, em muitos casos, permanece escondida dentro das próprias residências.
Taciana Afonso, secretária-executiva de Assistência Social
Embora os homicídios contra pessoas idosas tenham apresentado redução de 40,7% entre 2014 e 2024, com 39 mortes registradas no último ano analisado, a violência sem resultado fatal continua sendo uma grande preocupação. Mato Grosso do Sul aparece entre os estados com maior índice nacional de notificações desse tipo, com 310,5 registros para cada 100 mil idosos.
Entre janeiro e maio de 2023, foram contabilizadas 818 denúncias no Estado, média superior a cinco casos por dia. O número representa aumento de 59,4% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Campo Grande concentrou a maior quantidade de registros, com 502 denúncias, seguida por Dourados, com 51 casos, e Três Lagoas, com 39.
O estudo também identificou 4.704 violações de direitos relacionadas às denúncias, já que uma única ocorrência pode envolver diferentes formas de agressão contra a mesma vítima.
Violência psicológica e negligência são os casos mais frequentes
Os pesquisadores apontam que grande parte das agressões contra idosos não deixa marcas físicas, tornando a identificação mais difícil. A negligência aparece como a principal forma de violência, correspondendo a 41% das violações registradas.
Na sequência estão a violência psicológica, com 24%, o abuso financeiro, com 20%, a violência física, com 12%, e a violência institucional, com 2%.
Segundo o levantamento, cerca de 65% das violações são consideradas invisíveis, principalmente por envolverem abandono de cuidados, isolamento, humilhações, falta de assistência e outras formas de agressão emocional.
As mulheres representam 67% das vítimas identificadas. A maior concentração de casos ocorre entre idosos de 76 a 80 anos, enquanto pessoas acima dos 80 anos apresentam maior vulnerabilidade devido à necessidade crescente de cuidados e apoio.
A pesquisa também aponta relação entre baixa escolaridade e maior risco de violência. Aproximadamente 67% das vítimas possuem pouca instrução, sendo 35% com ensino fundamental incompleto e 32% sem alfabetização, condição que pode dificultar o acesso à informação e aos mecanismos de proteção.
Entre os problemas mais preocupantes está o abuso financeiro, que envolve situações como uso indevido de aposentadorias, movimentação de contas sem autorização, empréstimos realizados sem consentimento e falsificação de documentos. O risco aumenta quando essas práticas são cometidas por familiares ou pessoas responsáveis pelos cuidados do idoso.
Professor Eduardo Ramirez, autor da pesquisa
Especialistas defendem fortalecimento da rede de proteção
Durante o seminário, representantes do poder público e especialistas destacaram a necessidade de ampliar a integração entre órgãos de segurança, saúde, assistência social, Ministério Público e Judiciário para combater a violência contra idosos.
A proposta é fortalecer ações preventivas, facilitar denúncias e garantir atendimento adequado às vítimas. Entre as medidas debatidas está a criação de novas estruturas de apoio, como os Centros-Dia para idosos, que oferecem cuidados durante o período diurno e permitem que a pessoa permaneça em contato com a família.
Também foi discutida a necessidade de ampliar recursos para serviços de assistência social e instituições que acolhem idosos em situação de vulnerabilidade.
Outro ponto abordado foi o aumento de casos de idosos abandonados em hospitais após receberem alta médica. Segundo representantes do Ministério Público, muitos municípios ainda precisam desenvolver estruturas de acolhimento temporário para atender pessoas sem suporte familiar.
Especialistas reforçam que a responsabilidade pela proteção da pessoa idosa deve envolver tanto o poder público quanto as famílias, já que grande parte das violações ocorre dentro do ambiente doméstico.
Mato Grosso do Sul vive um processo acelerado de envelhecimento populacional. Segundo dados do Censo, o número de pessoas com 60 anos ou mais passou de 239,3 mil em 2010 para 391,1 mil em 2022. Atualmente, o Estado possui cerca de 412 mil idosos.
O seminário encerrou oficialmente a campanha Junho Prata, criada para conscientizar a sociedade sobre a violência contra a pessoa idosa e fortalecer políticas públicas voltadas à proteção, respeito e garantia de direitos dessa população. Com informações: Renato Camara.
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