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Açougue em Campo Grande; nova cobrança sobre a carne bovina brasileira exportada para a China pode influenciar o mercado e a formação de preços nos próximos meses (Foto: Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)
Por: Editorial | 22/07/2026 15:11
Uma nova medida adotada pela China coloca o setor da pecuária de Mato Grosso do Sul diante de um cenário de incertezas. O país asiático, principal destino da carne bovina exportada pelo Estado, atingiu no início de julho a cota estabelecida para as importações brasileiras e, a partir do limite, passou a aplicar uma cobrança adicional de 55% sobre o volume excedente.
Com a soma da sobretaxa à tarifa fixa de importação de 12%, a tributação sobre a carne que ultrapassar a cota pode chegar a 67%. A mudança reduz a competitividade do produto brasileiro no mercado chinês e pode provocar alterações na estratégia dos frigoríficos e de toda a cadeia produtiva.
A cota estabelecida para as exportações brasileiras é de 1,106 milhão de toneladas. Depois que esse volume é alcançado, a carne comercializada acima do limite fica sujeita à nova tributação.
Para Mato Grosso do Sul, o impacto pode ser significativo devido à importância do mercado chinês para a produção estadual. Com a elevação dos custos para exportação, frigoríficos podem buscar alternativas para direcionar parte da produção a outros países ou aumentar a oferta no mercado interno.
O pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, Thiago Bernardino de Carvalho, avalia que os efeitos da medida devem atingir diferentes elos da cadeia produtiva. Segundo ele, a pecuária de corte exige planejamento de longo prazo e os animais abatidos atualmente começaram a ser produzidos anos antes da definição da nova política comercial chinesa.
Dessa forma, a produção não pode ser interrompida de maneira imediata. Os pecuaristas precisam administrar os animais disponíveis e adaptar o manejo ao novo cenário de demanda, enquanto as indústrias buscam alternativas para comercializar a carne.
O impacto também poderá variar de acordo com o perfil de cada frigorífico. Empresas de maior porte e com forte dependência do mercado chinês podem enfrentar maiores dificuldades caso não consigam encontrar rapidamente novos compradores para a produção. Entre as medidas possíveis estão ajustes na atividade industrial e, em situações mais delicadas, a adoção de férias coletivas.
Os Estados Unidos aparecem como uma das alternativas para ampliar as vendas da carne bovina brasileira. O país é um dos principais compradores do produto nacional e adquiriu cerca de 300 mil toneladas em 2026. Ainda assim, a avaliação é de que o mercado norte-americano, sozinho, não teria capacidade para absorver todo o volume que poderia deixar de ser destinado à China.
A expectativa é de que aproximadamente 500 mil toneladas de carne bovina brasileira possam ficar fora das compras chinesas em razão do limite estabelecido. Para o setor, encontrar novos mercados em quantidade suficiente será um desafio, embora outros parceiros comerciais possam aumentar suas aquisições.
O mercado interno também poderá receber uma parcela maior da produção. Caso os frigoríficos consigam ampliar as vendas dentro do Brasil e conquistar novos compradores internacionais, parte dos efeitos da redução das exportações para a China poderá ser amenizada.
A mudança na política de importação chinesa também levanta dúvidas sobre o comportamento dos preços da carne bovina no mercado brasileiro. Com uma eventual redução das exportações, uma parcela maior da produção pode permanecer no país, aumentando a oferta e criando condições para uma possível queda nos preços.
No entanto, essa redução não deve ocorrer imediatamente. De acordo com a avaliação do pesquisador, alterações nos preços pagos ao produtor podem levar entre dois e três meses para serem percebidas pelo consumidor final.
Isso significa que uma eventual queda nos valores da carne no mercado externo ou na remuneração dos pecuaristas pode chegar ao varejo somente depois de algumas semanas. A intensidade dessa redução também dependerá de fatores como oferta e demanda, custos de produção e estratégias adotadas pelos frigoríficos.
Outro fator que pode influenciar os preços é a possibilidade de armazenamento da produção. Os frigoríficos podem congelar parte da carne para comercializá-la posteriormente, estratégia que permite administrar melhor a oferta e evitar uma queda brusca nos valores.
Além disso, como o setor já esperava que a cota chinesa fosse atingida entre julho e agosto, alguns produtores teriam ajustado previamente o manejo dos animais. Essa preparação pode contribuir para reduzir uma eventual pressão imediata sobre a oferta.
Para o consumidor, portanto, a nova política comercial da China pode trazer efeitos indiretos. Uma maior disponibilidade de carne no mercado brasileiro tende a favorecer uma redução dos preços, mas essa movimentação dependerá da capacidade das indústrias de reorganizar suas exportações e do comportamento da oferta ao longo dos próximos meses.
No caso de Mato Grosso do Sul, o cenário exige atenção de produtores, frigoríficos e demais integrantes da cadeia da carne bovina. A busca por novos mercados e a diversificação dos destinos das exportações devem ganhar importância para reduzir a dependência das vendas para a China.
Enquanto o setor se adapta à nova realidade, a principal preocupação é encontrar alternativas para absorver a produção que não poderá ser direcionada ao mercado chinês com a mesma competitividade. O resultado dessa reorganização poderá influenciar tanto a atividade econômica ligada à pecuária quanto o comportamento dos preços da carne para os consumidores brasileiros. Com informações: Mídiamax
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