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Especialista critica adaptação de “A Odisseia” e aponta apagamento de personagens femininas no filme de Christopher Nolan


Para o professor e especialista em cultura clássica Cláudio Moreno, produção impressiona pelo espetáculo visual, mas deixa de lado a complexidade das mulheres que desempenham papéis decisivos na epopeia atribuída a Homero.
Personagens de “A Odisseia” são alvo de análise de especialista em mitologia grega, que critica a adaptação dirigida por Christopher Nolan. (Foto: Universal Studios) Por: Editorial | 31/07/2026 13:54

A nova adaptação de “A Odisseia”, dirigida por Christopher Nolan, tem chamado atenção pela grandiosidade da produção e pelo desempenho nas bilheterias, mas também provocou críticas entre especialistas em mitologia e cultura clássica. Para o professor Cláudio Moreno, um dos principais problemas do longa está na forma como as personagens femininas da obra original foram retratadas ou retiradas da narrativa.

Segundo Moreno, a epopeia atribuída a Homero apresenta mulheres com forte presença na construção da história, dotadas de inteligência, autonomia e influência sobre os acontecimentos. Na avaliação do especialista, a adaptação cinematográfica teria reduzido essa dimensão ao priorizar cenas de ação, cenários grandiosos e efeitos visuais.

Penélope é interpretada por Anne Hathaway no filme. Segundo Cláudio Moreno, na epopeia ela é uma mulher poderosa e inteligente  (Foto: Universal Studios)

A história acompanha Odisseu, conhecido como Ulisses na tradição latina, durante sua longa tentativa de retornar para Ítaca após a Guerra de Troia. O que deveria ser uma viagem relativamente curta se transforma em uma jornada de aproximadamente dez anos, marcada por encontros com deuses, criaturas mitológicas e diferentes personagens que colocam o herói diante de desafios físicos e emocionais.

Para Moreno, a força da narrativa está justamente na combinação entre aventura e reflexão sobre temas universais, como família, identidade, escolhas e o desejo de retornar ao lar. Na avaliação dele, a adaptação teria dado maior destaque ao espetáculo cinematográfico e deixado em segundo plano parte da profundidade presente no poema original.

Entre as personagens apontadas pelo especialista está Penélope, interpretada no filme por Anne Hathaway. Na obra clássica, ela não é apresentada apenas como a esposa que aguarda o retorno do marido. Enquanto Odisseu está ausente, Penélope administra o reino de Ítaca e enfrenta a pressão de pretendentes interessados em se casar com ela e assumir o poder.

De acordo com Moreno, a inteligência da personagem é fundamental para a sobrevivência do reino e para a preservação de seu próprio destino. O especialista também destaca que, na narrativa original, Penélope demonstra cautela até mesmo quando Odisseu finalmente retorna, exigindo provas para confirmar a identidade do marido.

Outra personagem citada na análise é Circe, interpretada por Samantha Morton. Na epopeia, a feiticeira desempenha uma função importante na jornada de Odisseu, ajudando o herói a compreender os próximos passos de sua viagem. Para Moreno, a adaptação teria simplificado a personagem e reduzido sua complexidade.

A trajetória de Calipso, vivida por Charlize Theron, também é apontada como um exemplo de elemento importante que teria perdido espaço no filme. Na história original, a ninfa oferece a Odisseu a possibilidade de permanecer ao seu lado e alcançar a imortalidade. O herói, no entanto, escolhe continuar sua jornada de volta para Ítaca.

Na interpretação de Moreno, esse episódio possui grande importância para compreender as motivações do protagonista, já que a escolha de retornar para casa reforça o vínculo com sua família e com sua identidade. O especialista também considera relevante a reação de Calipso diante da ordem divina para libertar Odisseu.

Atena, uma das principais divindades relacionadas à jornada do herói, também aparece entre as personagens analisadas. Para Moreno, a deusa possui papel decisivo na narrativa original, atuando como protetora e conselheira de Odisseu. Na avaliação do professor, sua presença na adaptação não teria recebido a mesma força e relevância encontradas na epopeia.

Outro ponto destacado é a ausência de Nausícaa. Na obra clássica, a jovem princesa encontra Odisseu após um naufrágio e contribui para que ele seja acolhido entre os feácios. A personagem representa uma possibilidade de recomeço para o herói, que, mesmo diante da oportunidade de construir uma nova vida, escolhe seguir viagem em direção à sua terra natal.

Para Moreno, a retirada de Nausícaa elimina uma etapa importante da trajetória de Odisseu e reduz a compreensão sobre as escolhas feitas pelo personagem antes de finalmente retornar para casa.

A crítica do especialista também se insere em uma discussão mais ampla sobre a representação de personagens femininas na filmografia de Christopher Nolan. Ao longo da carreira do diretor, alguns críticos já questionaram a profundidade de determinadas personagens mulheres em comparação com os protagonistas masculinos.

Apesar das críticas, a adaptação também representa uma nova oportunidade de aproximar o público contemporâneo de uma das obras mais conhecidas da literatura clássica. A produção coloca novamente a jornada de Odisseu no centro do debate cultural e estimula discussões sobre como histórias antigas podem ser reinterpretadas para o cinema.

Para Cláudio Moreno, o desafio de adaptar uma obra com quase três mil anos de tradição está justamente em preservar os elementos que dão significado à narrativa. Na avaliação do especialista, ao concentrar a atenção na dimensão visual e nas aventuras do protagonista, o filme corre o risco de deixar de lado aspectos fundamentais da obra original, especialmente a participação das personagens femininas e os conflitos humanos presentes na jornada de retorno de Odisseu. Com informações: g1

 

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