| Hoje é Domingo, 16 de Agosto de 2026.

Civilização milenar na Amazônia pode ter reunido milhões de habitantes e surpreende cientistas


Tecnologia de mapeamento a laser identificou centenas de estruturas geométricas no Acre e no Amazonas e ampliou as estimativas sobre a população e a complexidade das sociedades que viveram na região.
Estruturas geométricas identificadas por pesquisadores na Amazônia revelam vestígios de antigas sociedades que ocuparam áreas do Acre e do Amazonas. (Foto: Reprodução/Martti Pärssinen) Por: Editorial | 04/08/2026 08:13

Durante séculos, a floresta amazônica foi vista por parte da ciência como uma região pouco ocupada antes da chegada dos europeus. Novas evidências arqueológicas, porém, estão mudando essa compreensão. Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros e estrangeiros identificou centenas de estruturas construídas por antigas populações no sudoeste da Amazônia, indicando a existência de uma sociedade complexa que pode ter reunido entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas em seu período de maior expansão.

Os vestígios estão concentrados principalmente em áreas que atualmente correspondem ao Acre e ao Amazonas e são associados à chamada civilização Aquiry, nome relacionado à denominação indígena do rio Acre. Segundo os pesquisadores, essas populações ocuparam uma área de aproximadamente 183 mil quilômetros quadrados, território de dimensões próximas às do estado do Paraná.

A descoberta foi possível graças ao uso de tecnologia de mapeamento aéreo a laser conhecida como Lidar. O equipamento consegue atravessar parcialmente a cobertura vegetal da floresta e registrar as características do terreno, permitindo identificar estruturas que permanecem escondidas sob a vegetação.

Com o método, os pesquisadores localizaram mais de 400 sítios arqueológicos preservados, muitos deles formados por grandes desenhos geométricos delimitados por valas profundas e conectados por caminhos retilíneos. A maior estrutura identificada ocupa cerca de 50 hectares, área equivalente a aproximadamente 70 campos de futebol.

Os cientistas acreditam, no entanto, que os locais encontrados representam apenas uma pequena parcela do que existiu na região. As estimativas indicam que podem ter sido construídos mais de 20 mil antigos centros cerimoniais, número significativamente superior às projeções anteriores para toda a Amazônia.

A quantidade de estruturas encontradas também provocou uma revisão nas estimativas sobre a população amazônica durante o primeiro milênio. Segundo os autores do estudo, a região ocupada pela civilização Aquiry poderia ter abrigado até 3 milhões de pessoas. A hipótese reforça a possibilidade de que a Amazônia tenha sido muito mais densamente povoada e transformada pelas sociedades indígenas do que se imaginava.

As comunidades não apenas construíam grandes espaços para atividades coletivas, como também modificavam a paisagem de maneira planejada. De acordo com os pesquisadores, as populações utilizavam áreas de floresta para o cultivo de alimentos como milho, abóbora e mandioca. Também manejavam determinadas espécies de árvores consideradas importantes, favorecendo sua presença em determinadas áreas.

Esse processo de transformação ambiental sugere que a relação entre os povos amazônicos e a floresta era mais complexa do que uma simples ocupação baseada na caça e na coleta. Os pesquisadores avaliam que a ação humana sobre a vegetação pode ter provocado impactos relevantes na composição da floresta e até mesmo nos ciclos de carbono da antiga Amazônia.

As estruturas geométricas encontradas também podem ter desempenhado diferentes funções sociais e políticas. A hipótese dos arqueólogos é que esses espaços funcionavam como locais de reunião, cerimônias e encontros entre comunidades. Neles, poderiam ocorrer atividades religiosas, celebrações, banquetes, apresentações musicais, danças, competições e jogos.

Os grandes caminhos que ligavam diferentes estruturas também indicam a existência de redes de interação entre grupos. A diversidade dos formatos e dos métodos de construção sugere que a região não era controlada por um único poder central, mas formada por diferentes comunidades que mantinham relações entre si.

Para pesquisadores envolvidos no estudo, a ausência de grandes construções de pedra pode ter contribuído para que a dimensão dessas sociedades permanecesse desconhecida durante tanto tempo. Como a região possui pouca disponibilidade de rochas, muitas das estruturas construídas pelos antigos habitantes foram feitas com terra, valas e aterros, elementos que acabaram sendo encobertos pela floresta ao longo dos séculos.

O conhecimento sobre os Aquiry ainda é limitado. Os pesquisadores não sabem ao certo quais idiomas eram falados por essas populações nem como seus próprios habitantes se identificavam. A interpretação dos geoglifos e de outras estruturas, portanto, depende da combinação entre arqueologia, tecnologia de sensoriamento remoto e conhecimentos indígenas.

O antropólogo brasileiro e indígena Francisco Apurinã, que participou da pesquisa, destacou que povos indígenas do Acre reconhecem estruturas semelhantes como espaços associados ao mundo espiritual. Essa perspectiva contribui para ampliar a compreensão sobre a possível função cultural e simbólica dos antigos geoglifos.

Apesar das descobertas, um dos maiores enigmas permanece sem resposta: o que aconteceu com essa sociedade entre aproximadamente os anos 850 e 1000 depois de Cristo. Os vestígios indicam uma presença humana expressiva durante séculos, mas ainda não há uma explicação definitiva para o abandono ou a transformação desses centros.

Os pesquisadores consideram que fatores ambientais, mudanças climáticas, conflitos, alterações econômicas ou transformações sociais podem ter influenciado o processo, mas novas investigações ainda são necessárias para esclarecer o destino dessas populações.

A pesquisa amplia o debate sobre a história da Amazônia e reforça a ideia de que a floresta abrigou sociedades indígenas numerosas, organizadas e capazes de alterar profundamente a paisagem. Os novos dados também indicam que muitas estruturas ainda podem estar escondidas sob a vegetação, deixando aberta a possibilidade de novas descobertas capazes de transformar novamente o conhecimento sobre o passado da maior floresta tropical do planeta. Com informações: g1

 

Divulgue sua marca conosco!
Sua empresa quer mais visibilidade e alcance de público? Entre em contato e anuncie conosco.

WhatsApp: (67) 2102-1069

Leve sua marca mais longe e conquiste novos clientes! 




Diário do Interior MS
NAVIRAÍ MS
CNPJ: 30.035.215/0001-09
E-MAIL: diariodointeriorms1@gmail.com
Siga-nos nas redes Sociais: