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Operação coordenada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul revelou organização criminosa que manipulava adolescentes pela internet e mantinha atuação em diversos estados brasileiros (Foto: Divulgação/Polícia Civil)
Por: Editorial | 05/08/2026 15:25
A Operação Lívia, coordenada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), revelou uma das mais complexas organizações criminosas voltadas à exploração psicológica de crianças e adolescentes no ambiente digital. As investigações apontam que o grupo atuava nacionalmente por meio de plataformas como Telegram e Discord, recrutando jovens emocionalmente vulneráveis para submetê-los a desafios extremos, automutilação, maus-tratos contra animais, humilhações e, em casos mais graves, indução ao suicídio.
O caso veio à tona após a morte de uma adolescente de 13 anos, moradora de Naviraí, que foi convencida por integrantes da organização a transmitir o próprio suicídio ao vivo pela internet. A apuração mostrou que a tragédia não foi um episódio isolado, mas parte de um esquema estruturado de manipulação psicológica com atuação em diversos estados brasileiros.
(Foto: Divulgação/Polícia Civil)
Um dos fatos mais alarmantes revelados pelas investigações é que o suposto líder da organização seria um adolescente de apenas 14 anos, localizado no estado do Rio de Janeiro. Além dele, outros cinco investigados foram alvos da operação, sendo cinco adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, apreendidos por determinação da Justiça, além de um jovem de 18 anos preso durante a ação.
Outro detalhe que chamou a atenção das autoridades foi o grau de controle exercido sobre a adolescente de Naviraí. Segundo o coordenador do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), Alessandro Barreto, os próprios criminosos criaram uma chave Pix em nome da vítima, sem conhecimento da família, e enviavam dinheiro para que ela comprasse uma gilete utilizada na prática de automutilação.
(Foto: Divulgação/Polícia Civil)
A forma como a conta foi aberta ainda é investigada, mas, de acordo com as autoridades, o episódio demonstra que a manipulação ultrapassava o ambiente virtual e atingia diretamente a rotina da adolescente.
As investigações apontam que os integrantes da organização monitoravam constantemente as vítimas, determinavam desafios, exigiam provas do cumprimento das ordens e acompanhavam tudo em tempo real. Os adolescentes eram inicialmente abordados por redes sociais e aplicativos de mensagens, onde conquistavam sua confiança antes de serem inseridos em grupos fechados destinados ao controle psicológico.
Conforme a Polícia Civil, os jovens eram submetidos gradativamente a isolamento, humilhações, violência psicológica, desafios cada vez mais perigosos, automutilação e outras práticas destinadas a fortalecer o domínio exercido pela organização criminosa.
Dias antes da morte, a adolescente de Naviraí também teria sido coagida a torturar e matar um gato como demonstração de fidelidade ao grupo. Segundo os investigadores, ela não conseguiu cumprir essa exigência.
Durante coletiva realizada pelo Ministério da Justiça, o secretário nacional de Direitos Digitais, Victor Oliveira Fernandes, explicou que o grupo utilizava diferentes plataformas para executar cada etapa dos crimes. Segundo ele, o Telegram era utilizado para recrutamento, organização interna e divulgação de conteúdos criminosos, enquanto o Discord servia para transmitir, em tempo real, episódios de automutilação e indução ao suicídio.
As investigações revelaram ainda que a organização possuía uma estrutura permanente de funcionamento. Os policiais encontraram documentos, registros de conversas, planejamento das ações e estratégias para recrutamento de novos integrantes, indicando que o grupo operava de forma organizada e contínua.
Além da vítima de Naviraí, outra adolescente, residente em outro estado, foi identificada durante as investigações enquanto também era manipulada pelo grupo. A atuação rápida das equipes impediu que ela cometesse suicídio durante uma transmissão ao vivo.
Segundo o delegado responsável pelas investigações, o monitoramento das conversas revelou que novos casos já estavam sendo planejados. Após a apreensão do adolescente apontado como líder da organização, ele confirmou aos investigadores que outra vítima já havia sido escolhida. A Polícia Civil passou então a localizar familiares e emitir alertas para impedir uma nova tragédia.
As descobertas deram origem à Operação Lívia, coordenada nacionalmente pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA) de Mato Grosso do Sul, com apoio do Ciberlab e das polícias civis de Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Pará.
Durante a operação, foram cumpridos mandados judiciais nos cinco estados. Computadores, celulares e diversos equipamentos eletrônicos foram apreendidos e serão submetidos à perícia especializada para identificar outras vítimas, localizar novos integrantes da organização e individualizar a participação de cada investigado.
Paralelamente, o Ministério da Justiça apresentou os resultados da Operação Rede Interrompida, conduzida pela Polícia Civil do Distrito Federal, que desarticulou outro grupo formado por adolescentes responsáveis pela divulgação de conteúdos neonazistas, antissemitas e misóginos, além do planejamento de ataques contra prédios públicos na Esplanada dos Ministérios durante o período eleitoral.
O Ministério da Justiça informou ainda que notificará oficialmente as plataformas Discord e Telegram para solicitar a suspensão das contas e dos servidores utilizados pelos investigados. Também será encaminhado à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) um pedido para apurar possíveis violações ao Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) e ao Marco Civil da Internet.
Segundo o governo federal, foram identificadas falhas na verificação da idade dos usuários, na supervisão parental e na moderação de conteúdos ilícitos, fatores que, conforme a investigação, facilitaram a atuação da organização criminosa.
As investigações permanecem em andamento e novas fases da operação não estão descartadas, já que o material apreendido poderá revelar outras vítimas e ampliar o número de envolvidos no esquema criminoso. Redação @portaldoconesul
