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Pesquisa da UFMS mapeia casas de madeira que ajudam a preservar a memória e a história de Naviraí (Foto: Divulgação/UFMS).
Por: Editorial | 27/08/2026 08:44
Em meio às transformações de Naviraí, antigas casas de madeira ainda permanecem como testemunhas de uma época em que o município começava a ganhar forma. Construídas principalmente durante as décadas de 1960 e 1970, essas residências ajudam a contar a história dos primeiros moradores e das técnicas utilizadas na formação da cidade. Agora, elas são alvo de uma pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), que busca registrar, analisar e valorizar esse patrimônio antes que novas construções sejam perdidas com o avanço do tempo.
O projeto Casas de madeira de Naviraí: ocorrências, conservação e memória reúne professores e acadêmicos do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMS de Naviraí. Coordenado pelos professores Ricardo Bitencourt e Camila Amaro, o estudo tem como objetivo identificar as edificações remanescentes, mapear sua localização, avaliar as condições de conservação e compreender a importância dessas construções para a memória urbana do município.
A iniciativa surgiu a partir de levantamentos realizados por estudantes da disciplina Ateliê de Projeto Integrado 5, em 2023 e 2025. O material produzido durante as atividades acadêmicas chamou a atenção dos pesquisadores para a quantidade de construções que ainda resistem na cidade e, ao mesmo tempo, para o processo de desaparecimento desse patrimônio ao longo das últimas décadas.
De acordo com o professor Ricardo Bitencourt, a possibilidade de perda dessa memória e a necessidade de preservação foram alguns dos principais fatores que motivaram o aprofundamento do estudo. As casas de madeira são consideradas importantes registros do período de ocupação de Naviraí, especialmente durante o ciclo da exploração madeireira.
Mais do que construções antigas, os imóveis permitem compreender aspectos da formação urbana, os hábitos dos primeiros moradores e os métodos construtivos empregados naquele período. Fotografias históricas analisadas pela equipe indicam que uma parcela significativa das edificações existentes durante a formação do município era construída em madeira.
Essas residências também apresentam características arquitetônicas próprias, incluindo soluções adaptadas ao clima, estratégias relacionadas ao conforto ambiental e técnicas construtivas que se diferenciam dos modelos predominantes atualmente.
Mapeamento identifica 229 residências
Um dos resultados mais importantes da pesquisa foi a atualização do levantamento das casas remanescentes. A estimativa inicial apontava a existência de aproximadamente 240 imóveis preservados. Após a atualização dos dados, foram identificadas 229 residências, número que já leva em consideração seis casas demolidas entre 2023 e 2026.
Para os pesquisadores, a quantidade ainda existente chamou atenção. Todas as edificações identificadas estão localizadas no chamado octógono central de Naviraí, região que corresponde ao núcleo original da cidade.
A distribuição dos imóveis também ajudou a equipe a compreender que o setor atualmente ocupado pelas casas preservadas chegou a concentrar um número ainda maior de construções de madeira no passado.
Pesquisa une levantamento técnico e histórias dos moradores
O estudo foi dividido em diferentes etapas. Inicialmente, os pesquisadores organizaram informações já disponíveis sobre os imóveis, incluindo mapas, fichas cadastrais e a divisão das áreas pesquisadas. Depois, a equipe retornou às ruas para confirmar a localização das residências, atualizar os registros fotográficos e analisar as condições de cada construção.
As visitas foram agendadas previamente com os moradores. Durante os encontros, os pesquisadores realizaram medições, observações técnicas e fotografias, além de conversar com os proprietários sobre a história das casas e a relação das famílias com os imóveis.
Os relatos acabaram se tornando uma parte importante do trabalho. Segundo Ricardo Bitencourt, os moradores, em geral, receberam bem a equipe e compartilharam histórias e lembranças relacionadas às residências.
A pesquisa também utilizou recursos de inteligência artificial para auxiliar na recuperação de fotografias históricas. A tecnologia foi empregada para melhorar a visualização das imagens e retirar elementos que dificultavam sua leitura, permitindo uma análise mais detalhada das características arquitetônicas, materiais e volumétricas das construções.
Condições das casas preocupam pesquisadores
Depois do levantamento, cada residência foi submetida a uma avaliação técnica baseada em um checklist desenvolvido especificamente para construções de madeira.
Entre os itens observados estavam sinais de umidade e infiltração, presença de fungos e insetos, condições da estrutura de madeira, fissuras, deformações e funcionamento de portas e janelas. Também foram analisados o estado da proteção superficial da madeira, como verniz ou stain, além das condições de calhas, rufos, encaixes e cobertura dos imóveis.
Os resultados mostram um cenário que exige atenção. Das 229 casas identificadas, 27 foram classificadas em estado muito bom de conservação. Outras 166 apresentam condição intermediária, enquanto 36 estão em situação considerada ruim.
Para os pesquisadores, os dados demonstram um processo de descaracterização que avança sobre essas construções e evidencia a fragilidade desse patrimônio diante da falta de políticas públicas específicas para sua preservação.
Ricardo Bitencourt considera que as residências podem ser reconhecidas como parte do patrimônio cultural de Naviraí, justamente por testemunharem o processo de ocupação ocorrido nas décadas de 1960 e 1970 e a influência do ciclo da madeira na formação do município.
Além da deterioração natural, o desaparecimento das casas representa, segundo o pesquisador, uma perda para a memória coletiva e para a história das famílias que participaram da construção da cidade.
Pesquisa também contribui para formação de estudantes
O projeto não se limita ao levantamento das edificações. A participação dos acadêmicos também tem contribuído para a formação profissional dos estudantes envolvidos.
Durante as atividades, eles desenvolvem conhecimentos relacionados ao levantamento e à documentação do patrimônio arquitetônico, identificação de problemas e patologias em construções de madeira, organização de dados e produção científica.
A experiência também estimula a observação, o pensamento crítico e a compreensão da relação entre arquitetura, história e memória.
O estudante André Luiz Costa Martins destaca que o trabalho ampliou sua percepção sobre o significado dessas construções. Segundo ele, a diversidade das casas, as histórias contadas pelos moradores e o nível de deterioração de algumas delas foram alguns dos aspectos que mais chamaram sua atenção.
O contato com os proprietários também ajudou a revelar o valor afetivo dos imóveis. No início, alguns moradores demonstraram certa desconfiança, mas muitos acabaram compartilhando lembranças e histórias familiares que contribuíram para a pesquisa.
Entre as experiências que marcaram o estudante está uma residência localizada na Rua Bunji Tadano, onde sua namorada viveu durante determinado período. A relação com o imóvel ajudou a mostrar, na prática, como uma construção antiga pode representar mais do que uma estrutura física, reunindo sentimentos de pertencimento, aconchego e memória.
Para os pesquisadores, essa dimensão afetiva é fundamental para compreender o valor das casas de madeira. A preservação não envolve apenas materiais, técnicas construtivas e características arquitetônicas, mas também as histórias das pessoas que viveram nesses espaços.
Próximas etapas do estudo
A pesquisa continua em desenvolvimento. A equipe trabalha na organização dos dados coletados, na ampliação do acervo documental e na busca por registros históricos junto à Fundação de Cultura de Naviraí.
Os pesquisadores também preparam a consolidação das análises para a elaboração de um artigo científico e do relatório final do projeto.
A intenção é que o levantamento ajude a chamar a atenção da sociedade e do poder público para a importância das construções remanescentes. Para a equipe, reconhecer essas casas como parte da memória urbana é um passo importante para discutir formas de conservação.
A pesquisa da UFMS reforça que as 229 residências identificadas não representam apenas imóveis antigos espalhados pela cidade. Elas constituem registros materiais de um período específico da formação de Naviraí e guardam histórias de famílias, técnicas construtivas e transformações urbanas que ajudam a explicar como o município chegou à configuração atual. Redação @Portaldoconesul com informações UFMS
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