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Unidade de processamento de soja em Dourados integra a cadeia de produção que abastece o mercado de biocombustíveis em Mato Grosso do Sul (Foto: Coamo/Divulgação).
Por: Editorial | 31/08/2026 15:25
O crescimento da produção de biodiesel está transformando a relação entre a lavoura e a indústria de biocombustíveis em Mato Grosso do Sul. No primeiro semestre de 2026, o Estado produziu 31,159 milhões de litros, volume 32,4% superior aos 23,536 milhões de litros registrados no mesmo período do ano anterior. O avanço levou Mato Grosso do Sul à sétima posição entre os maiores produtores nacionais no período.
A expansão ganha relevância para o setor agrícola porque o óleo de soja representa 77,38% das matérias-primas utilizadas na produção estadual de biodiesel. Com isso, o aumento da atividade industrial amplia o mercado para a soja e cria novas possibilidades de integração entre produtores rurais, cooperativas e usinas.
O levantamento da Aprosoja/MS aponta que esse cenário pode resultar em oportunidades que vão além da comercialização tradicional dos grãos. Entre as possibilidades estão novos formatos de fornecimento, contratos com unidades produtoras de biodiesel e, em determinadas situações, o uso do combustível produzido a partir da própria cadeia da soja nas atividades agrícolas e de transporte.
O biodiesel puro, conhecido como B100, é produzido a partir de óleos vegetais ou gorduras animais. No Estado, a soja ocupa posição predominante entre as fontes utilizadas. A fabricação ocorre por meio da transesterificação, processo químico no qual o óleo reage com um álcool na presença de um catalisador.
O mercado brasileiro também passa por um processo de ampliação gradual da participação do biodiesel no diesel comercial. A Lei do Combustível do Futuro estabeleceu um cronograma para aumento da mistura obrigatória, com previsão de alcançar o B20 até março de 2030. Atualmente, a mistura utilizada é o B15. A elevação para B16, que estava prevista para 2026, foi postergada para 2027 diante da necessidade de novos testes técnicos.
Com uma maior proporção de biodiesel no diesel comercial, a demanda por matérias-primas tende a crescer. Para Mato Grosso do Sul, isso reforça a importância do óleo vegetal, especialmente o derivado da soja, e pode aproximar ainda mais a produção agrícola das agroindústrias.
O Estado conta atualmente com três usinas de biodiesel em funcionamento. A Cargill mantém uma unidade em Três Lagoas, a Delta Biocombustíveis opera em Rio Brilhante e a Lar Cooperativa Agroindustrial possui uma planta em Caarapó.
A unidade da Cargill está integrada a uma estrutura de processamento de soja e possui capacidade anual de até 347,4 mil metros cúbicos de biodiesel. A Delta tem capacidade nominal de 100 milhões de litros por ano e utiliza, além do óleo de soja, sebo bovino e óleo de caroço de algodão. Já a unidade da Lar, inaugurada em 2023, pode produzir até 144 milhões de litros anuais e também está vinculada a um complexo de esmagamento de soja.
O avanço da indústria ocorre paralelamente ao aumento da produção de soja em Mato Grosso do Sul. Dados do Projeto SIGA-MS citados no estudo mostram que a área cultivada passou de 4,52 milhões de hectares na safra 2024/2025 para 4,62 milhões de hectares em 2025/2026, crescimento de 2,1%. A produção avançou de 14,06 milhões para 16,74 milhões de toneladas, alta de 19,1%. No mesmo período, a produtividade média aumentou de 51,79 para 60,40 sacas por hectare.
Com maior oferta de soja e uma indústria de biodiesel em expansão, o óleo extraído do grão ganha espaço estratégico dentro da cadeia produtiva. Para o agricultor, esse movimento pode ampliar os destinos comerciais da produção e acompanhar uma demanda industrial que tende a crescer.
Outra possibilidade avaliada pela Aprosoja/MS é a utilização do B100 diretamente nas propriedades rurais, inclusive em máquinas agrícolas, equipamentos e veículos. Mudanças recentes na legislação simplificaram o procedimento para determinados usos voluntários do biodiesel puro. Em situações específicas, como a utilização em tratores e outros equipamentos automotores empregados em atividades agrícolas, passou a ser necessária a comunicação eletrônica à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em vez da autorização prévia exigida anteriormente.
A adoção do B100, entretanto, depende da compatibilidade dos equipamentos. A recomendação é que produtores consultem as especificações dos motores e as orientações dos fabricantes, principalmente quando se trata de máquinas mais antigas.
O combustível apresenta características próprias que também exigem atenção na manutenção. Por possuir maior lubricidade, pode contribuir para reduzir o desgaste de componentes do sistema de injeção. Por outro lado, absorve mais umidade que o diesel mineral, o que exige cuidados com armazenamento, drenagem de água e manutenção dos filtros. A utilização inicial também pode desprender resíduos acumulados no sistema de combustível.
Apesar das possibilidades, a substituição direta do B15 pelo B100 adquirido no mercado não representa, necessariamente, redução imediata dos custos para o produtor. Segundo o estudo, o biodiesel puro negociado entre usinas e distribuidoras custava, em média, R$ 5,12 por litro na última semana de abril de 2026. A análise também considerou um preço do B100 aproximadamente 10% superior ao diesel B15.
Outro fator é o poder calorífico do biodiesel de soja, que é cerca de 10% menor que o do diesel mineral. Dependendo do motor e das condições de utilização, isso pode elevar o consumo específico. Considerando preço e consumo, a estimativa apresentada pela Aprosoja/MS aponta que o custo por quilômetro rodado com B100 adquirido de terceiros pode ficar entre 20% e 30% acima do B15.
Dessa forma, a principal vantagem econômica do biodiesel não está necessariamente no preço pago diretamente pelo combustível. Os benefícios podem aparecer em outras etapas da cadeia, como a valorização do óleo de soja, maior previsibilidade diante das oscilações do petróleo e do câmbio, além da possibilidade de negociação de Créditos de Descarbonização, os CBios, e de acesso a mercados associados à redução de emissões.
O cenário pode ser diferente para empresas que possuem estruturas próprias para produção do combustível. O estudo cita como exemplos a AMAGGI e a Bunge, em Mato Grosso, que utilizam B100 produzido dentro de suas próprias operações. Nesse modelo, a empresa reduz a dependência da compra do combustível pronto e pode alcançar uma estrutura de custos distinta daquela enfrentada por quem adquire o biodiesel de terceiros.
Experiências realizadas no país também demonstram que o B100 já pode ser empregado em diferentes atividades. A AMAGGI possui uma fábrica em Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso, com capacidade de 330 mil metros cúbicos anuais e utiliza o combustível em máquinas agrícolas, caminhões e uma embarcação fluvial.
Outro projeto envolve a Bunge e a Martelli Transportes, que iniciaram em 2025 uma operação com dez caminhões abastecidos com B100 produzido pela própria empresa. Os veículos realizam o transporte de farelo de soja entre Nova Mutum e Rondonópolis, com consumo aproximado de 50 mil litros do combustível por mês.
Também existem testes e operações experimentais envolvendo B100 no transporte de cargas e em atividades de apoio rodoviário, com participação de empresas como JBS, Biopower, Ecovias Noroeste Paulista, Volkswagen Caminhões, Volvo e Transdotti.
Além do combustível, os produtores de soja podem encontrar outra possibilidade de remuneração por meio dos CBios, créditos vinculados ao programa RenovaBio. A legislação passou a permitir a participação do produtor rural na receita gerada pelos créditos associados à matéria-prima adquirida pelas usinas.
Para culturas como soja e milho, entretanto, não há um percentual mínimo de repasse estabelecido por lei. A participação precisa ser negociada diretamente entre produtor e usina e pode ser estabelecida, por exemplo, por meio de um prêmio vinculado ao fornecimento da matéria-prima.
Isso significa que o produtor de soja não passa a receber automaticamente parte dos CBios apenas por vender sua produção a uma usina de biodiesel. Para ter direito a uma parcela dessa receita, é necessário que exista uma negociação contratual específica prevendo o repasse.
Informações relacionadas ao manejo e à produção da propriedade também podem integrar esse tipo de acordo, já que dados do processo produtivo podem contribuir para a avaliação dos indicadores ambientais e energéticos da cadeia.
O estudo ressalta ainda que utilizar B100 diretamente na propriedade não gera, por si só, direito a CBios. A possibilidade de participação está vinculada ao fornecimento de matéria-prima para uma usina e à existência de um contrato que estabeleça o repasse da receita.
Para o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, o crescimento do biodiesel representa uma oportunidade para que o produtor observe novas possibilidades dentro da cadeia produtiva.
A avaliação da entidade é que a aproximação entre agricultores, usinas e cooperativas pode favorecer contratos diferenciados, ampliar as alternativas de fornecimento e valorizar atributos ligados à sustentabilidade.
O avanço do biodiesel, portanto, cria duas perspectivas principais para os produtores de soja de Mato Grosso do Sul: o fortalecimento da demanda pelo óleo de soja e a possibilidade de avaliar o B100 como alternativa para determinadas operações. A adoção do combustível, porém, depende de fatores como escala de produção, logística, estrutura disponível, características das máquinas e condições de abastecimento de cada propriedade. Com informações: Coamo
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