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Mais de 150 crianças aguardam uma família em Mato Grosso do Sul


Maioria dos menores disponíveis para adoção tem mais de seis anos, enquanto apenas 32 dos 242 pretendentes cadastrados no Estado aceitam essa faixa etária.
Crianças e adolescentes aguardam a oportunidade de integrar uma família por meio da adoção em Mato Grosso do Sul (Foto: Luciana Nassar/ALEMS) Por: Editorial | 15/09/2026 16:13

Em Mato Grosso do Sul, 157 crianças e adolescentes vivem atualmente em serviços de acolhimento enquanto aguardam a oportunidade de integrar uma nova família. O dado revela um dos principais desafios da adoção no Estado: boa parte dos menores já passou da primeira infância, justamente a faixa etária mais procurada pelos pretendentes.

Do total, 138 crianças e adolescentes, o equivalente a 87,9%, têm seis anos ou mais. Entre elas estão adolescentes e grupos de irmãos, perfis que tradicionalmente enfrentam mais dificuldades para encontrar pretendentes habilitados.

O cenário ajuda a explicar a importância das ações voltadas à chamada adoção tardia. Em Mato Grosso do Sul, a Lei Estadual nº 5.921, de 2022, criou a Semana de Incentivo à Adoção Tardia, realizada anualmente na primeira semana de setembro. A legislação busca ampliar a conscientização sobre crianças maiores e adolescentes que também aguardam por uma família.

Os números do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento mostram um descompasso entre o perfil das crianças e o desejo de parte dos pretendentes. Atualmente, 242 pessoas ou casais manifestaram interesse em adotar no Estado. Desse grupo, apenas 32, ou 13,2%, aceitam crianças com mais de seis anos.

Entre os menores disponíveis, 106 não possuem pretendentes interessados. Desse total, 53 são adolescentes. Outros 53 já despertaram o interesse de alguma família, mas somente quatro deles estão na adolescência.

A adoção tardia não possui uma definição legal específica, mas o termo costuma ser utilizado para crianças maiores, geralmente a partir dos sete anos, e adolescentes. Para especialistas e profissionais da área, a construção do vínculo exige preparo, paciência e disposição para compreender a trajetória de cada criança.

A juíza Katy Braun do Prado, da Vara da Infância, Adolescência e do Idoso de Campo Grande e presidente da Associação Brasileira de Magistrados da Infância e Juventude, destaca que muitas dessas crianças carregam experiências de negligência, violência, abandono e rompimentos familiares. Segundo ela, o perfil inclui principalmente crianças maiores de sete anos, adolescentes, irmãos que precisam ser adotados juntos e menores com condições de saúde ou necessidades específicas.

A magistrada ressalta que os pretendentes precisam estar preparados para lidar com eventuais dificuldades e compreender que a adaptação ocorre gradualmente. Em alguns casos, crianças permanecem durante anos nos serviços de acolhimento e chegam à adolescência sem encontrar uma família disposta a assumir esse compromisso.

Outro aspecto importante é a preservação dos vínculos entre irmãos. Em Mato Grosso do Sul, 103 crianças que aguardam adoção têm pelo menos um irmão, o equivalente a 65,6% do total. Para muitos desses menores, o irmão representa uma das relações mais estáveis mantidas durante períodos de mudanças e afastamentos familiares.

O perfil das crianças também revela a diversidade dessa espera. São 88 meninos e 69 meninas. Em relação à raça e cor, 86 são pardos, 34 brancos, 21 indígenas e 16 pretos.

Por idade, seis crianças têm até dois anos; quatro estão entre dois e quatro anos; 20 têm de seis a oito; outras 20 estão entre oito e dez; 19 têm de dez a 12; 25 estão entre 12 e 14; 33 têm de 14 a 16 anos; e 23 possuem mais de 16 anos.

Experiências de famílias que passaram pela adoção tardia mostram que a idade não impede a construção de vínculos. Ana Beatriz, 33 anos, e Marcos, 30, adotaram duas irmãs que tinham 11 e 12 anos e hoje vivem com o casal no Pará.

Inicialmente, os dois haviam indicado preferência por crianças de até sete anos, mas durante o processo demonstraram abertura para acolher crianças mais velhas. As meninas foram apresentadas ao casal por meio da chamada busca ativa, estratégia utilizada para aproximar famílias de crianças e adolescentes que encontram mais obstáculos para serem adotados.

Como viviam em estados diferentes, o primeiro contato ocorreu por chamadas de vídeo. Depois de aproximadamente um mês de conversas, veio o encontro presencial.

A adaptação exigiu mudanças para todos. As meninas passaram a viver em outra casa, cidade, escola e rotina. Medos e dificuldades de sono também fizeram parte do período inicial. Para os pais, o processo significou aprender a reconhecer necessidades que ainda não conheciam.

Segundo Ana Beatriz, a experiência mostrou que a adoção não precisa seguir o modelo imaginado inicialmente pelos pretendentes. Ela afirma que muitas descobertas consideradas típicas da primeira infância também podem acontecer com crianças maiores, como os primeiros passeios, eventos escolares e experiências familiares.

Outro exemplo é o de Iria Ramirez Gomes, 68 anos, professora aposentada, e do marido, Paulo Roberto Gomes. O casal adotou Valmir Batista dos Santos quando ele tinha 10 anos, depois de o menino ter passado cerca de cinco anos em um serviço de acolhimento.

A aproximação ocorreu com a ajuda de uma das filhas do casal, que trabalhava na área de assistência social. Valmir já mantinha amizade com o neto da família, o que contribuiu para a adaptação. Com o passar do tempo, tornou-se parte da rotina familiar.

Hoje, aos 24 anos, Valmir mora fora, mas mantém contato frequente com os pais. Para Iria, a experiência confirmou que crianças maiores e adolescentes também podem construir relações familiares duradouras.

Em Mato Grosso do Sul, o Tribunal de Justiça mantém o Programa Aproximando Vidas, criado em 2022 para ampliar as possibilidades de encontro entre pretendentes e crianças e adolescentes com maior dificuldade de inserção em uma família.

A iniciativa utiliza uma plataforma on-line para apresentar perfis de menores aptos à adoção, especialmente aqueles que são mais velhos, fazem parte de grupos de irmãos ou possuem outras características que podem reduzir o número de pretendentes.

O interesse pelo perfil, porém, não significa adoção imediata. O pretendente ainda precisa passar por habilitação judicial, avaliação psicossocial, preparação e acompanhamento técnico, conforme as regras do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento.

No Brasil, 6.271 crianças e adolescentes estão disponíveis para adoção. Desse total, 4.146 ainda não possuem pretendentes vinculados, enquanto 2.125 já despertaram o interesse de alguma família.

Em Mato Grosso do Sul, os dados dos últimos oito anos mostram que 1.061 crianças e adolescentes foram adotados. Cerca de 57% das adoções envolveram menores de até quatro anos. Entre aqueles com idade entre seis e 16 anos, 328, aproximadamente 30%, deixaram os serviços de acolhimento para viver com uma família. Na faixa entre 12 e 16 anos, foram 62 adoções.

Os números reforçam que o principal desafio não está apenas em encontrar pessoas dispostas a adotar, mas em ampliar a compreensão sobre os diferentes perfis de crianças e adolescentes que esperam por uma família.

A adoção tardia não apaga a história anterior do menor. O objetivo é oferecer segurança, afeto, orientação e a possibilidade de construir novas referências familiares, respeitando o tempo e as experiências que cada criança traz consigo.

Serviço

A Escola Judicial de Mato Grosso do Sul, em parceria com a Coordenadoria da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça, promoverá entre 1º de outubro e 30 de novembro o curso “Preparação à Adoção: Nasce uma Família”.

As inscrições poderão ser feitas de 16 a 27 de setembro pelo site da Ejud-MS. A formação será totalmente on-line, com oito turmas e sete módulos que abordarão aspectos emocionais, sociais e jurídicos relacionados à adoção. Com informações: ALEMS

 

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