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Endividamento rural cresce e coloca produtores diante de uma combinação de juros, clima e preços baixos


Inadimplência no campo chegou a R$ 48 bilhões em junho, enquanto custos elevados, eventos climáticos e queda das commodities pressionam a renda dos produtores.
Colheita de soja ocorre em um cenário de preços pressionados, custos elevados e aumento do endividamento entre produtores rurais. (Referência: Divulgação) Por: Editorial | 19/09/2026 07:35

Depois de anos marcados por recordes de produção e forte expansão dos investimentos, uma parcela do agronegócio brasileiro passou a enfrentar um cenário de maior dificuldade financeira. O aumento do endividamento rural ocorre ao mesmo tempo em que os preços de algumas commodities recuam, os custos de produção permanecem elevados, os juros estão altos e eventos climáticos afetam a produtividade.

Dados citados no levantamento apontam que a inadimplência no setor alcançou R$ 48 bilhões em junho. O montante representa crescimento expressivo em relação aos R$ 2 bilhões registrados cinco anos antes, evidenciando a dimensão do problema enfrentado por produtores que assumiram financiamentos durante um período de maior rentabilidade.

Parte desse movimento teve origem no ciclo de valorização iniciado em 2020. Naquele período, produtos como soja, milho e gado registraram preços elevados, enquanto a taxa básica de juros estava em 2% ao ano. O crédito mais acessível favoreceu investimentos em máquinas, aquisição de terras, estruturas de armazenamento e ampliação das atividades produtivas.

A realidade, porém, mudou nos anos seguintes. A partir de 2023, diversas commodities entraram em um período de preços mais baixos. A soja exemplifica essa trajetória. Em Mato Grosso, a saca de 60 quilos chegou a superar R$ 190 em março de 2022. Posteriormente, recuou para aproximadamente R$ 105 e, em agosto de 2026, permanecia abaixo de R$ 130, conforme dados da Agrolink.

A redução da receita ocorreu paralelamente à manutenção de despesas elevadas. Fertilizantes, defensivos, máquinas e outros insumos sofreram pressão de custos, enquanto as oscilações cambiais também influenciaram os preços dos produtos utilizados nas lavouras. A valorização do dólar pode favorecer as exportações, mas também encarece itens adquiridos no mercado internacional.

As dificuldades financeiras ainda foram agravadas pelas condições climáticas. Períodos prolongados de estiagem comprometeram a produtividade em determinadas regiões, enquanto enchentes provocaram perdas em lavouras, pastagens, estradas e estruturas rurais. Em situações desse tipo, o produtor pode ter redução na colheita justamente quando precisa de maior receita para cumprir compromissos financeiros.

Outro ponto de preocupação é a cobertura por seguro rural. Com menor proteção contra eventos climáticos, parte maior das perdas acaba concentrada no próprio produtor. Mesmo diante de uma safra prejudicada, permanecem os compromissos com instituições financeiras, fornecedores e demais despesas da atividade.

O custo do crédito também mudou significativamente. A Selic, que estava em 2% ao ano em 2020, chegou a 15% em 2025. Com isso, financiamentos contratados em um período de juros baixos passaram a pesar mais sobre o orçamento de produtores que enfrentavam simultaneamente redução das margens e aumento dos custos.

A combinação desses fatores tem alimentado discussões sobre a necessidade de mecanismos de renegociação e proteção para o setor. Entre as medidas apontadas estão critérios para reestruturação das dívidas, fortalecimento do seguro rural e ampliação de instrumentos capazes de reduzir os impactos provocados por eventos climáticos e oscilações de mercado.

Ao mesmo tempo, especialistas e representantes do setor defendem que eventuais programas de renegociação precisam considerar as diferentes situações enfrentadas pelos produtores. Nem todos os casos de endividamento têm a mesma origem, e medidas amplas sem critérios podem alcançar tanto agricultores atingidos por fatores externos quanto operações que assumiram níveis elevados de risco.

O agronegócio mantém papel relevante na economia brasileira, especialmente em estados com forte presença da atividade rural, como Mato Grosso do Sul. O atual cenário, porém, evidencia que a produção agrícola também está exposta às oscilações de preços, ao custo do crédito e aos efeitos cada vez mais severos das condições climáticas. Com informações: Campo Grande News

 

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