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De Corumbá para a história: quem foi Carmen Portinho, pioneira do feminismo e do urbanismo no Brasil


Nascida em Mato Grosso do Sul, engenheira participou da luta pelo voto feminino e ajudou a transformar a habitação popular e o planejamento urbano no país.
Carmen Portinho em frente ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em registro de 1981. (Foto: Arquivo Nacional) Por: Editorial | 21/09/2026 09:20

Nascida em Corumbá, em Mato Grosso do Sul, Carmen Velasco Portinho se tornou uma das mulheres pioneiras na engenharia, no urbanismo e na defesa dos direitos femininos no Brasil. Ao longo de quase todo o século 20, construiu uma trajetória marcada pela atuação profissional, pela participação na luta pelo voto das mulheres e pela defesa de políticas de habitação popular.

Carmen nasceu em 1903 e se mudou ainda criança com a família para o Rio de Janeiro. Na então capital federal, começou a se aproximar do movimento feminista e passou a defender a ampliação dos direitos das mulheres, incluindo o acesso à educação, ao trabalho e à participação política.

Na década de 1920, esteve ao lado de Bertha Lutz em campanhas pelo sufrágio feminino. Uma das ações de Portinho chegou a envolver aviões: segundo relatos históricos, ela participou da distribuição de panfletos sobre o Rio de Janeiro para divulgar a defesa do direito das mulheres ao voto.

Em 1922, Carmen e Bertha Lutz participaram da criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização que teve papel importante na mobilização pelo sufrágio feminino no país. O direito de votar foi conquistado pelas mulheres brasileiras em 1932.

Uma das primeiras engenheiras do Brasil

Em 1925, Carmen Portinho se formou em engenharia pela antiga Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela foi a terceira mulher brasileira a conquistar o diploma de engenheira.

No ano seguinte, ingressou como engenheira na Diretoria de Obras e Viação da prefeitura do Rio. Também passou a lecionar no tradicional Colégio Pedro II, então uma instituição predominantemente masculina.

Sua atuação profissional ocorreu em um ambiente no qual mulheres ainda enfrentavam forte resistência para ocupar profissões consideradas exclusivamente masculinas. Mesmo assim, Carmen construiu reconhecimento pela competência técnica e continuou ampliando sua atuação.

Em 1930, criou a União Universitária Feminina, voltada à presença das mulheres nas chamadas profissões liberais. Sete anos depois, também participou da criação da Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas.

Primeira brasileira com título de urbanista

A trajetória de Carmen avançou ainda mais quando ela decidiu se especializar em urbanismo. Em 1936, concluiu uma pós-graduação na área e recebeu o título de urbanista, tornando-se a primeira brasileira a obtê-lo.

Como parte da formação, apresentou um anteprojeto para a construção da futura capital federal. A proposta previa uma cidade planejada para aproximadamente 2 milhões de habitantes e seguia conceitos do urbanismo moderno.

Anos depois, em 1945, Carmen viajou para a Europa com uma bolsa do Conselho Britânico. Durante a estadia, acompanhou trabalhos de reconstrução de cidades atingidas pela Segunda Guerra Mundial.

A experiência reforçou sua visão de que arquitetura e planejamento urbano poderiam ser utilizados para melhorar as condições de vida da população.

Habitação popular como instrumento de transformação

Ao retornar ao Brasil, Carmen assumiu um dos trabalhos mais importantes de sua carreira. Ela criou e dirigiu o Departamento de Habitação Popular da Prefeitura do Distrito Federal.

Foi nesse período que surgiu o projeto do Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Morais, conhecido como Pedregulho, no Rio de Janeiro. A iniciativa foi idealizada por Carmen e desenvolvida em parceria com o arquiteto Affonso Eduardo Reidy.

O complexo representou uma nova proposta para a habitação destinada à população de baixa renda. Em vez de apenas oferecer moradias de baixo custo, o projeto incorporava equipamentos e serviços para os moradores, como escola, posto de saúde e áreas destinadas à convivência.

A proposta ajudou a consolidar uma visão de habitação popular integrada ao planejamento urbano e à vida comunitária.

Uma carreira além do urbanismo

Carmen Portinho também participou da construção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, projeto desenvolvido por Reidy, e dirigiu a Escola Superior de Desenho Industrial, considerada a primeira escola de design da América Latina. Permaneceu por cerca de duas décadas à frente da instituição.

Sua carreira no serviço público municipal terminou em 1962, quando decidiu antecipar a aposentadoria após divergências com a administração da época.

Mesmo aposentada, continuou envolvida em questões relacionadas aos direitos das mulheres e à vida pública. Em 1987, já durante o processo de elaboração da Constituição de 1988, participou da entrega da Carta das Mulheres aos constituintes, documento que reunia propostas relacionadas aos direitos femininos.

Carmen Portinho morreu em 2001, aos 97 anos, deixando uma trajetória que uniu engenharia, urbanismo, habitação, educação e defesa da participação feminina na sociedade.

Em 2022, ela foi oficialmente declarada patrona do urbanismo brasileiro, reconhecimento que consolidou a importância de sua contribuição para o planejamento das cidades no país. Com informações: g1

 

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