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Lula e Flávio Bolsonaro participaram do primeiro debate direto do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, promovido pelo Grupo Bandeirantes. (Foto: Renato Pizzutto/Band)
Por: Editorial | 19/10/2026 07:20
Confronto promovido pela Band ocorreu a uma semana da eleição presidencial e teve discussões sobre saúde, criminalidade, maioridade penal e relações com os Estados Unidos; candidatos também defenderam propostas distintas para o país
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) protagonizaram, na noite de domingo, 18 de outubro, o primeiro debate direto entre os dois candidatos no segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Promovido pelo Grupo Bandeirantes, o encontro foi marcado por acusações, provocações e divergências sobre temas centrais para o país, a apenas uma semana da votação, marcada para 25 de outubro.
Ao longo de três blocos, os candidatos discutiram segurança pública, economia, saúde, produtividade, combate à corrupção, redução da maioridade penal e relações internacionais. Além de apresentar propostas, Lula e Flávio questionaram decisões e posicionamentos do adversário, transformando parte do encontro em um confronto sobre os históricos políticos e as investigações envolvendo os dois grupos.
O debate foi mediado pelos jornalistas Eduardo Oinegue e Adriana Araújo e contou com a participação de profissionais do Grupo Bandeirantes e de veículos parceiros. As regras permitiram perguntas dos apresentadores e momentos de confronto direto entre os candidatos.
A segurança pública foi o primeiro tema discutido. Questionado sobre o avanço das facções criminosas, o domínio territorial de organizações ilegais e a redução da maioridade penal, Flávio Bolsonaro defendeu uma política de endurecimento contra o crime organizado.
O senador afirmou que pretende declarar uma “guerra ao narcoterrorismo” e classificar grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas. Também prometeu recuperar áreas dominadas por criminosos e ampliar o rigor das punições contra integrantes dessas organizações.
Flávio criticou a política de segurança do governo federal e acusou a atual administração de favorecer o desencarceramento. Segundo ele, a atuação das forças policiais deverá ser fortalecida para retomar territórios e combater grupos armados.
Lula, por sua vez, defendeu uma atuação integrada entre União, estados e municípios. O presidente argumentou que, embora a segurança pública seja uma atribuição constitucional dos estados, o governo federal precisa ampliar sua participação no enfrentamento às organizações criminosas.
O petista citou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e afirmou que, caso a proposta avance no Congresso, pretende criar um Ministério da Segurança Pública. Também defendeu o combate às facções tanto nas comunidades e nos territórios sob influência criminosa quanto nos setores econômicos que, segundo ele, sustentam essas organizações.
Os dois candidatos apresentaram, assim, abordagens diferentes: enquanto Flávio enfatizou o endurecimento penal e a atuação policial, Lula destacou a integração entre os níveis de governo e o enfrentamento das estruturas que financiam o crime organizado.
A situação econômica foi outro ponto de forte divergência. Lula defendeu o estímulo ao crescimento por meio da circulação de renda, do fortalecimento dos pequenos negócios e de políticas de incentivo aos Microempreendedores Individuais (MEIs).
O presidente também mencionou investimentos nas economias digital, verde e criativa e afirmou que o Brasil estaria próximo de recuperar o grau de investimento. Na avaliação de Lula, a ampliação das oportunidades de trabalho e a modernização da economia são caminhos para sustentar o desenvolvimento.
Flávio Bolsonaro questionou os resultados econômicos do governo e chamou a atenção para os preços dos alimentos, o endividamento público e as dificuldades financeiras enfrentadas pelas famílias. O senador atribuiu o aumento da dívida àquilo que classificou como excesso de gastos da administração federal.
O candidato prometeu controlar as despesas públicas, abrir espaço no Orçamento e direcionar recursos para reduzir o endividamento do governo e ajudar pessoas endividadas. Também defendeu medidas de renegociação de dívidas de famílias e empresas, embora parte dos detalhes de seu plano econômico ainda não estivesse definida, segundo a reportagem original.
Durante o confronto direto, os dois voltaram a trocar acusações. Lula questionou um voto de Flávio, quando era deputado estadual, contrário à ampliação da licença-maternidade de servidoras públicas. O senador afirmou não ter nada contra as mulheres, mas, conforme o relato do debate, não explicou especificamente o voto.
Flávio, por sua vez, questionou Lula sobre investigações envolvendo a empresária Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente. Segundo a reportagem do g1, os dois são investigados em inquéritos que apuram suspeitas de tráfico de influência em órgãos federais para beneficiar empresários. Roberta nega irregularidades e afirma que sua relação com Lulinha é de amizade.
Em nota divulgada antes do debate, o Palácio do Planalto afirmou que Lula nunca manteve interlocução com Roberta, não recebeu demandas dela e não tinha conhecimento das supostas tratativas mencionadas. O governo também declarou que não existe contrato federal com a empresária.
O debate avançou para acusações relacionadas a casos de corrupção e investigações. Flávio citou fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e acusou o governo de não proteger adequadamente os aposentados.
Lula respondeu que o esquema foi descoberto e combatido durante sua gestão. A reportagem informou que a Polícia Federal havia indiciado 48 pessoas na primeira investigação sobre as fraudes.
O presidente também cobrou explicações do adversário sobre um pedido de R$ 134 milhões atribuído à tentativa de obter financiamento do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
De acordo com o material publicado pelo g1, a Polícia Federal investigava suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção relacionadas ao financiamento. Flávio era investigado no inquérito e negava irregularidades. Em entrevista à TV Globo, na sexta-feira anterior ao debate, afirmou que o contrato não havia sido cumprido.
As acusações foram utilizadas pelos candidatos para questionar a credibilidade e a conduta do adversário. No entanto, a existência de uma investigação não significa, por si só, comprovação de culpa.
No segundo bloco, os candidatos discutiram os desafios do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente as filas para consultas especializadas, exames e cirurgias.
Flávio Bolsonaro defendeu a criação de um prontuário eletrônico único, integrado entre as redes municipal, estadual, federal e privada por meio do CPF dos pacientes. Também propôs ampliar o uso da telemedicina, da tecnologia e da inteligência artificial para agilizar atendimentos.
O senador afirmou que pretende levar ao sistema público o que chamou de “padrão Einstein” e mencionou o médico Claudio Luiz Lottenberg como sua escolha para comandar o Ministério da Saúde caso seja eleito.
Lula questionou a proposta e perguntou se a iniciativa representaria uma tentativa de privatização do SUS. O presidente também criticou a gestão de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 e defendeu a recuperação e o fortalecimento da rede pública.
Na discussão, Lula destacou medidas relacionadas à ampliação do número de médicos e à redução do tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento contra o câncer. Flávio reconheceu que a saúde não foi uma das áreas de melhor resultado da administração de Jair Bolsonaro, atribuindo parte das dificuldades ao impacto da pandemia.
A política criminal voltou ao centro do debate quando Flávio questionou Lula sobre a saída temporária de presos. O senador citou crimes cometidos por detentos beneficiados pela medida e pediu que o presidente se posicionasse sobre a manutenção do benefício.
Lula defendeu a saída temporária para presos com bom comportamento como instrumento de ressocialização, mas afirmou que pessoas condenadas por crimes violentos não deveriam receber esse benefício. O presidente também sustentou que o sistema prisional precisa oferecer condições para a recuperação dos detentos.
A redução da maioridade penal apareceu novamente na parte final do confronto. Flávio defendeu a diminuição da idade de responsabilização penal, a castração química de estupradores e o endurecimento das penas para crimes como roubo de celulares.
O senador apoia uma proposta da oposição que prevê reduzir a maioridade penal para 16 anos na maioria dos crimes e para 14 anos em situações específicas.
Lula também passou a defender a redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos durante a reta final da campanha. A posição havia sido explicitada em entrevista à TV Globo na quinta-feira, 15 de outubro.
Mesmo com essa aproximação parcial de posições, os candidatos mantiveram diferenças sobre a abrangência das mudanças e sobre as medidas necessárias para enfrentar a violência.
No terceiro bloco, os candidatos foram questionados sobre a baixa produtividade da economia brasileira e sobre como aumentar a produção e os rendimentos da população.
Lula afirmou que o país precisa estimular investimentos empresariais em inovação e citou a política Nova Indústria Brasil. Também defendeu o desenvolvimento de áreas como economia digital, data centers, economia criativa e economia verde, além da formação de profissionais em campos como engenharia e matemática.
Flávio Bolsonaro apresentou propostas relacionadas à conectividade e à qualificação profissional. O senador disse que pretende tratar a internet como infraestrutura e ampliar a conexão de escolas, hospitais e aldeias indígenas.
Ele também prometeu criar uma plataforma para aproximar trabalhadores dos setores de recursos humanos das empresas, além de oferecer capacitação e financiamento por meio da Caixa Econômica Federal para pessoas interessadas em abrir negócios próprios.
A política externa foi outro tema de confronto. Lula questionou a relação de Flávio com os Estados Unidos e perguntou se um eventual governo do senador permitiria que os americanos explorassem terras raras brasileiras.
Flávio negou ter atuado para prejudicar empresas nacionais por meio de tarifas impostas pelos Estados Unidos e afirmou que viajou ao país para defender produtos e empresas brasileiras.
Lula acusou a família Bolsonaro de subordinação aos interesses americanos e propôs que ambos abrissem suas contas bancárias e seus sigilos telefônicos antes da eleição. Flávio respondeu que não tinha nada a esconder e defendeu a cooperação entre países das Américas no combate às organizações criminosas, além de maior atuação das Forças Armadas nas fronteiras.
O tema evidenciou diferenças sobre a condução das relações internacionais e a maneira como o Brasil deve defender seus interesses econômicos e estratégicos.
Nas considerações finais, Lula defendeu a continuidade de seu governo e afirmou que o Brasil tem condições de ampliar o crescimento econômico. Entre as prioridades citadas pelo presidente estavam a recuperação da indústria e a manutenção de empresas estatais fortes e produtivas.
Flávio afirmou que não faria promessas que não pudesse cumprir e voltou a defender a criação do Ministério da Prosperidade, além de suas propostas para a segurança pública. O senador disse que pretende colocar o cidadão no centro das decisões do governo e pediu votos para o segundo turno.
O encontro ocorreu em um cenário de disputa apertada. Conforme os levantamentos citados pelo g1, pesquisa Datafolha divulgada em 15 de outubro apontava Flávio com 47% das intenções de voto e Lula com 45%. Pesquisa Quaest divulgada no dia anterior mostrava o senador com 46% e o presidente com 44%. Em ambos os casos, a diferença estava dentro da margem de erro, caracterizando empate técnico.
No primeiro turno, Flávio terminou à frente, com aproximadamente 2,2 milhões de votos a mais que Lula, uma diferença de 1,87 ponto percentual, segundo a reportagem.
Com a votação marcada para 25 de outubro, o debate da Band marcou o início de uma semana decisiva para as duas campanhas. A expectativa é de que novos confrontos, atos públicos e estratégias de mobilização sejam utilizados para conquistar os eleitores ainda indecisos. Com informações: g1
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